“Num mergulho em si,

Ela ri aos olhos do tempo,

No intento das mudanças,

Em andanças d’alma,

E se arma de esperança,

Na dança dos tantos futuros,

Emergindo presentes, puros ou não,

Cabendo somente a ela a decisão…”

(Poeta Ricardo Morais)

 

Na soma do que nos constrói, carregamos um misto de opiniões sobre quem somos, no resgate daquilo que irá definir as ações de agora e o que se projeta para o futuro, numa reflexão que transcende a própria ideia de um posicionamento absoluto, vulnerável diante dos pensamentos existenciais e transcendentais, numa simbologia mítica do humano, onde a verdade nunca será encontrada, códigos de condutas como meras críticas, pressupostas pelo uso das máscaras sociais, nos mais diversos sentidos e objetivos, sejam para nos protegermos do mundo, ou num sentido adverso, resguardar o mundo de nós.

O outro, enquanto parâmetro, é objeto simbólico que aparentemente reflete aquilo que almejamos, ou não. Porém, se aceitarmos a extração do que projetamos, naquilo que a princípio nos serviu de base, uma nova versão provavelmente aparecerá, numa visão nítida de que não está no outro o reflexo do que queremos e, sim, é algo que está intimamente encravados em nós, está nas nossas vontades e desejos de preencher aquilo que nos falta, daí essa necessidade de transferimos para o outro nossas criações e fantasias, e como se não bastasse, ainda queremos que o outro corresponda exatamente como desenhamos nos projetos internos de nossas resoluções. Caso este não corresponda às expectativas, há de se incorrer com os erros, dogmas e práticas impostos a ele.

Cada vez que usamos máscaras, e nos deparamos com os nossos reflexos, quem estamos de fato enxergando? São os reflexos que trazemos na alma ou uma imagem ficcional? Quais personagens estamos montando nas cenas que compõem o filme de nossas vidas? Nenhum de nós sabe ao certo para onde vai, onde chega. Na verdade, só temos a certeza que é nessa caminhada que está todo o nosso aprendizado, em cada pedacinho de chão andado, em cada mergulho que damos em nossa alma, quando a reflexão se faz necessária, em busca de respostas que só em nós poderemos encontrar, nessa dupla jornada-interna e externa, com toda a contradição existente no paradoxo da existência humana.

A realidade subjetiva nem sempre é translúcida, porém, ainda que os erros sejam irrefutáveis, evidenciando a vida humana como algo intraduzível, indizível e misterioso, cabe a cada um de nós – nessa gangorra da vida, no limiar do viver e morrer -, amar e odiar, entre verdades e mentiras, justiça e impunidade, vivendo entre o real e o sonho, acreditando (ou não) nas falsas posturas morais e/ou nas falsas razões edificantes. É aqui que convivemos e, apesar de tudo, buscamos amar sem as pretensões do ego, simplesmente com o desejo de seguir, cada um, seus caminhos, tendo como prerrogativa, o instinto mais nobre do animal: não trair, nem dar ao outro as responsabilidades de sua felicidade, cabendo a si as escolhas dos caminhos bifurcados.

Pode ser simples, e não nos custa tentar mergulhar nas profundezas do ser, enxergar-se nos reflexos da alma, descomplicando o fazer diário, melhorando a convivência com nossos pares, valendo-nos da resiliência, compreensão e amor ao próximo, tangendo as coisas do coração aliadas a razoabilidade do cotidiano, equiparando as relações sociais e interpessoais na busca do novo fazer diário, onde o novo normal é cheio de anormalidades e nos ensina que muitas vezes precisamos nos afogar nos nossos erros para que a lucidez emerja e reflita em nossas vivências futuras.