Cultura como sinônimo de benefício financeiro

Ontem à noite, durante o bate-papo com o público no primeiro encontro do Oxigênio, comentei que o setor cultural também tem um papel a desempenhar em um processo de “reeducação” das empresas patrocinadoras, no sentido de começar a mostrar que investimentos na área podem ser uma ação integrada às estratégias empresariais de comunicação e marketing, e não apenas sinônimo de benefício fiscal. Assim como começar a mostrar que a cultura merece investimentos tanto quanto projetos e ações sociais ou ligados ao meio-ambiente (duas áreas que conseguem atrair investimentos empresariais mesmo sem leis de incentivo fiscal). Na árdua luta por recursos financeiros, parece que o principal e primeiro argumento de venda nos contatos com as empresas é a Lei Rouanet. E se o projeto possibilitar 100% de abatimento no imposto de renda, o argumento é ainda mais forte.

Mas basta navegar pelos sites das diversas agências de “marketing cultural” que nasceram pós-boom da Lei Rouanet na segunda metade dos anos 90 para notar que ainda temos um longo caminho a percorrer. E não são só elas. O site da Pinacoteca, por exemplo, destaca em sua home: “Você pode ser um patrocinador de nossas exposições. Na página patrocinadores, acesse o link isenção fiscal e veja como é fácil”.

A maior parte do mercado deixou de lado a importância da cultura e o desenvolvimento de reais estratégias de captação para aprimorar o discurso do quão financeiramente vantajoso é patrocinar nossa área. É como dizer “a cultura vale a pena porque te possibilita pagar menos impostos”. É este papel que queremos atribuir à cultura?  Estamos cada vez mais nos afundando na armadilha das leis de incentivo fiscal.

E agora nossa vizinha Argentina estuda criar uma lei similar, a partir do nosso modelo. Jorge Coscia, o secretário de Cultura de lá, declarou em uma entrevista: “Nossos países devem ser imaginativos em matéria de políticas culturais, têm de ter leis compensatórias. Deve haver um marco que fixe a importância das políticas Culturais, que trate a cultura como um direito humano essencial.” E esse marco seria uma lei de incentivo? Coitados…


1 Comment »

  1. Costumo me opor veementemente, ao foco principal na questão da economia da cultura. A área, não só no setor público, não pode ficar adstrita a uma categoria de mercado. Parece ser um foco neo-liberal, que a crise dos ’sub-prime’ sepultou, como modismo. O entretenimento efetivamente é um sub-setor econômico de muito peso. Mas por este caminho, acabamos reféns dos nossos monopólios mediáticos, na sua associação estreita, com os interesses especulativos; e o seu completo descompromisso, com a educação e a cultura. Aliás, o consumismo, beira a imbecilidade. Temos que pensar em mudanças a longo prazo. Apenas um pequeno exemplo: nas nossas pré-escolas (0 a 4-5 anos), mais cultura e menos pré-alfabetização. Outro exemplo complementar: a narrativa nesta mesma faixa da infância, tende a melhorar a efetividade de todo o processo educativo posterior. Coisa que devemos aprender e desenvolver, a partir das vivências entre as gerações, das nossas culturas pré-letradas. Pais e professores teriam a oportunidade de resgatar e enriquecer essa experiência. Alunos, na condição mais aproximada, de sujeitos do processo educativo. E o potencial cultural disso, melhor trabalhado.

    Comment by wposnik — Outubro 20, 2009 @ 1:56 pm

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