Cinema independente busca soluções de distribuição nos EUA

The Coolidge Corner TheatreCom as salas de cinema no Brasil concentradas nas grandes cidades e sempre ocupadas pelos blockbusters hollywoodianos da temporada, as distribuidoras independentes se deparam com a dificuldade de encontrar brechas abertas para estrearem dignamente seus filmes, nacionais ou não. Os resultados são cruéis: estréias adiadas por meses, filmes que vão diretamente para as locadoras ou produções brasileiras em cartaz em uma única sala (e às vezes em um único horário).

O recente lançamento de “Batman – o Cavaleiro das Trevas” no país ocorreu em cerca de 520 salas, o que significa que praticamente 1/4 do número total de cinemas no Brasil estava exibindo o mesmo filme.  A situação não acontece somente aqui. A hegemonia hollywoodiana nas telas de cinema é questão mundial, e me fez lembrar de uma matéria que eu havia lido há meses no indieWire (a bíblia virtual do chamado cinema independente americano), relatando algumas experiências bem-sucedidas de distribuição de filmes indepedentes nos EUA.

A matéria informa que as salas comerciais voltadas para o “cinema de arte” enchem suas telas de filmes produzidos pelas divisões especializadas dos grandes estúdios (como a Fox Searchlight), que os chamam de independentes, quando na realidade não são. É dessas divisões que saem boa parte dos principais indicados ao Oscar todos os anos. Ira Deutchman, executivo da Emerging Pictures, afirma que as salas comerciais de “cinema de arte”, preocupadas com seus custos, visam a bilheteria. “Mas quando a instituição também tem um compromisso cultural, outras coisas podem acontecer”.

Dentro desse cenário, os filmes realmente produzidos à margem dos grandes estúdios se deparam com uma dificuldade crescente de exibição nesses espaços, mesmo quando têm distribuição garantida. Sem contar a quantidade expressiva de títulos significativos que não encontram distribuidores nos EUA, o que inclui desde mestres reconhecidos do cinema como Eric Rohmer e Jia Zhang-Ke até figuras centrais do próprio cinema independente americano, como Abel Ferrara (vide outra matéria publicada pelo indieWIRE).

Algumas das soluções alternativas que vêm sendo testadas nos EUA apostam na existência de um nicho de público interessado nesses filmes, mas que não encontra espaço onde assisti-los. A tecnologia digital vem desempenhando um papel fundamental nesse processo, dispensando o gasto com produção de cópias em película e o transporte das mesmas. O que encontra respaldo em uma quantidade expressiva de filmes independentes produzidos em digital.

O Coolidge Corner Theatre, tradicional sala de cinema não hollywoodiano em Boston, transformou um escritório em duas pequenas salas para exibição de filmes em vídeo ou DVD. A Emerging Pictures vem equipando espaços de exibição fora do circuito comercial com projetores digitais para depois programar filmes independentes. E espaços de exibição em museus e centros culturais também têm sido largamente utilizados.

Fico pensando se o investimento em distribuição nesses espaços alternativos, com o conseqüente investimento em ações de divulgação e de formação de público, não poderia ser um dos muitos caminhos (porque o buraco é bem mais embaixo) para tentar ampliar o público para o cinema brasileiro. Na cidade de São Paulo, por exemplo, existem espaços possíveis em faculdades, museus e instituições. A Secretaria do Audiovisual criou um programa interessante, Programadora Brasil, que disponibiliza um catálogo de filmes nacionais em DVDs para pontos de exibição não-convencionais. Os pontos de cultura e os cineclubes que ainda resistem bravamente pelo país estão entre os associados mais comuns, mas há ainda um leque variado de espaços que poderiam ser explorados, inclusive pelas distribuidoras. O investimento na construção de salas menores de cinema no interior do país, equipadas com projetores digitais, é outro ponto que não vem recebendo a atenção merecida.

A produção de filmes brasileiros deu saltos consideráveis nos últimos anos, com as leis de incentivo e programas de fomento revitalizando um setor que chegou ao limite de três filmes produzidos após a extinção da Embrafilme. Mas as políticas governamentais para o audiovisual precisam agora contemplar o gargalo da distribuição e da formação de público com a mesma atenção que vêm dando ao fomento da produção.


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