Os gargalos do setor audiovisual brasileiro
E o cinema brasileiro continua nadando contra a maré tripla do desinteresse do público, falta de espaços de exibição e dificuldade de distribuição. Isso se levarmos em conta apenas as dificuldades pós-produção.
Segundo dados da Filme B, no primeiro semestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2007, o público de filmes nacionais caiu 31,8%. Eu costumava ouvir com freqüência uma argumentação de que uma das razões para o pouco público residiria no fato de que a maioria desses filmes não tinha verbas para boas campanhas de marketing e divulgação. Mas de uns tempos para cá, até as produções da Globo Filmes andam decepcionando nas bilheterias, e esses filmes contam com a melhor divulgação possível: comerciais e comentários nos programas do maior veículo de comunicação do país. Mesmo assim, não estão atraindo público.
Também ouço argumentos de que o cinema nacional não está produzindo filmes com os quais o público consiga se identificar. Fico me perguntando que tipo de filmes seriam esses, ou se podemos estabelecer, de fato, um elo de identificação do público de cinema no Brasil com produções como o mais recente “Batman”. No fundo, me parece que ainda resiste o preconceito com a nossa cinematografia. Basta uma lida nos comentários deixados em fóruns e blogs que tentam discutir o assunto para vê-lo ali, bem presente, na linha do “só tem pobreza no nosso cinema” (a classe média, especialmente, parece gostar de ver o Primeiro Mundo) ou “filme brasileiro não presta” (com exceção da santíssima trindade “Central do Brasil” – “Cidade de Deus” – “Tropa de Elite”). Este último foi um fenômeno -especialmente da pirataria – com bom impulso da mídia, mas ainda parece um case para ser estudado à parte, como exceção.
A cota de tela anual para nossa produção ainda encontra defensores. Os exibidores reclamam, e no meu entender, com razão. Qual o sentido de manter em cartaz alguns títulos que terão boa parte de suas sessões vazias? Parece haver uma crença de que se os filmes estiverem nas salas, as pessoas irão assisti-los apenas por isso, sendo que no momento da decisão, as escolhas ainda parecem recair sobre o blockbuster hollywoodiano da temporada ou qualquer comédia americana. As empresas exibidoras não teriam nenhum problema em manter filmes brasileiros em cartaz por mais tempo do que o previsto na tela de cota, desde que eles apresentassem retorno financeiro. O buraco é mais embaixo.
Durante a última edição do Festival do Rio, voltou a se falar na proposta de que produções beneficiadas por leis de incentivo fiscal só tenham suas filmagens autorizadas após fecharem contrato de distribuição. A idéia é defendida por Rodrigo Saturnino Braga (diretor da Columbia no Brasil) e segundo o jornal Folha de S. Paulo, a Ancine é simpatizante da proposta. Se fosse aprovada, provavelmente muitos títulos com valor artístico mas pouco atraentes comercialmente iriam mofar bastante até começarem as filmagens. A questão me faz pensar, mais uma vez, em como as leis de incentivo no Brasil vêm atuando como substitutas de políticas públicas para a cultura. Com o foco na Lei do Audiovisual e na produção de filmes, os gargalos da distribuição, da circulação e da formação de público são jogados para o escanteio. Já não passou da hora de o MinC investir no fortalecimento de distribuidoras de filmes nacionais, por exemplo?
No podcast que gravei com Ana Carla Fonseca Reis, falamos sobre a questão do audiovisual no Brasil. Ela faz um contraponto entre o dinheiro público investido na produção de filmes e o número de espectadores atingidos, e o resultado, como se pode imaginar, é gritante. Como resolver essa equação sem inundar nossas telas apenas com produtos de entretenimento na linha “A Grande Família” é uma questão a ser pensada.
Em entrevista para a UOL na ocasião do lançamento de seu filme mais recente, “Linha de Passe”, o cineasta Walter Salles levanta a pergunta “para que o cinema é necessário?” e afirma que é o cinema comercial que está em crise no Brasil. Em sua penúltima edição, a revista Carta Capital também discute o tema. E o Observatório Itaú Cultural acaba de lançar a segunda edição do livro “Estado e Cinema no Brasil“, de Anita Simis, que tenta jogar luz sobre as razões de a indústria audiovisual nacional não ter se desenvolvido como poderia.

