No final de julho, Lula esteve presente no lançamento oficial do Vale-Cultura, em São Paulo, após ter se ausentado totalmente dos encontros para apresentar o projeto de reformulação da Lei Rouanet (não deixa de ser mais seguro investir no que não gera controvérsias). O vídeo abaixo mostra uma fala do presidente durante o evento, a respeito da má distribuição da produção audiovisual nacional. “O que nós precisamos é tentar descobrir uma política de incentivar a construção das coisas lá”, diz ele, referindo-se à falta de salas de cinema na periferia. Ele também passa um recado para o ministro: “Essa é uma deficiência, Juca, que nós vamos precisar fazer um debate muito forte, como é que nós vamos reativar essa atividade extraordinária”. Ou seja, a praticamente um ano do término de dois mandatos, Lula acha que é preciso discutir uma questão que há muito tempo é crucial para uma possível retomada de público para o cinema brasileiro.
O que o Ministério da Cultura fez, sob sua gestão, para fomentar a construção de espaços de exibição nas periferias e no interior do país? Em 2008, publicou uma lei estendendo os benefícios do artigo 18 da Lei Rouanet à construção de salas em municípios com menos de 100.000 habitantes, fato pouco divulgado e ainda desconhecido provavelmente pela maioria do setor cultural e empresas patrocinadoras. Lançou ainda a Programadora Brasil, interessante iniciativa de disponibilização de acervo em dvd para pontos de exibição não comerciais. Têm sido divulgados números sobre a quantidade de títulos oferecidos, mas não sobre o real alcance de público do programa.
A Secretaria do Audiovisual apresenta aqui um balanço de 2008 de seus programas e ações, assim como as perspectivas para este ano. Na dimensão da distribuição, não encontramos uma ação sequer voltada para o desenvolvimento de espaços de exibição, mas há um programa voltado à distribuição do cinema brasileiro no exterior. Ou seja, contempla-se o estrangeiro (e não nego a importância de se trabalhar esse nicho), mas não o mercado interno.
A verdade é que, durante toda a gestão de Lula, as ações voltadas para o audiovisual continuaram centradas na produção. O debate que ele propõe ao ministro e as tentativas de desenvolver uma política de incentivo à construção de salas não deveriam estar ocorrendo há sete anos?
Reginaldo Faria desabafa no Festival de Gramado. Foto Edison Vara/PressPhoto
Trechos da coletiva de imprensa do ator Reginaldo Faria realizada no último dia 11 no Festival de Cinema de Gramado, onde ele foi homenageado com o troféu Oscarito: “Evidentemente, quero voltar a dirigir cinema, mas também encontro dificuldades”; “Não fui aprovado num edital e nossa empresa já produziu 40 filmes, somos veteranos no cinema. Quando entramos num edital, esperamos aprovação pelo histórico no cinema, mas fomos reprovados dada a exigência e análise rigorosa que eles fazem do nossos projetos, não os consideraram compatíveis ao público alvo, ao mesmo tempo que a comissão julgadora se sente no direito de fazer mudanças no elenco”; “Na história, o personagem viola correspondências e em alguns lugares não tem internet, eles desaprovaram por que o público jovem não assistiria a esse filme por que é muito ligado à internet”; “Pessoas que nunca deram seu sangue pra fazer cinema são as pessoas que decidem q tipo de filme será feito hoje”.
Defendo e acho saudável que empresas invistam em cultura enquanto estratégia de comunicação, embora seja contra o formato brasileiro de leis de incentivo fiscal, um equívoco de criação de estratégia para atrair investimentos privados para a cultura que se transformou numa bola de neve que só aumenta de tamanho. Mas há algo de muito perverso no panorama cultural de um país quando um ator com um histórico fabuloso dentro do cinema nacional não conseguer levantar recursos para rodar um filme, e não encontra outro modo de viabilizar a produção que não seja peregrinar por empresas e editais de financiamento. Assim como há algo equivocado quando patrocinadores só conseguem investir em projetos que se adequem aos (supostos) interesses do grande público. O conceito de cauda longa parece estar passando longe da maioria das empresas patrocinadoras, assim como a inovação que tanto gostam de exibir em seus discursos institucionais.
“Chatô – o Rei do Brasil” deve ter sido o único filme brasileiro que ficou conhecido mesmo não chegando às telas. Estréia do ator Guilherme Fontes na direção de um longa, o projeto captou cerca de R$8,6 milhões em 1995 pelas leis Rouanet e do Audiovisual. Eletrobras e Telesp estiveram entre os patrocinadores, cada uma investindo cerca de R$2 milhões. O dinheiro foi gasto, mas as filmagens foram interrompidas alguns anos depois por falta de verbas.
No decorrer dos anos, acompanhamos pela mídia a novela envolvendo o projeto, das irregularidades na prestação de contas ao MinC ao ator solicitando mais verba para terminar o filme (ele teve autorização do TCU para captar mais R$3,3 milhões). No início do ano passado, o governo federal exigiu a devolução de R$36 milhões aos cofres públicos, equivalente à atualização do montante captado.
Uma pesquisa do projeto no site do MinC indica a última movimentação como sendo de novembro de 2002. “Situação: pedido de prorrogação excepcional. Providência tomada: proponente diligenciado, solicitando documentação fiscal”. Segundo este artigo, publicado há dois dias, Fontes diz que o filme está pronto e chega aos cinemas no próximo verão.
Enquanto isso, de acordo com a coluna de hoje de Mônica Bergamo no jornal Folha de S. Paulo, o ator se prepara para “relaxar e fazer uma limpeza alimentar e espiritual” em um spa. Limpeza do dinheiro público ele não precisaria fazer.
A TV Brasil começou a exibir hoje a série Cultura Ponto a Ponto, que em 26 episódios documentais, mostrará as atividades desenvolvidas por Pontos de Cultura de dez estados. Parece uma boa oportunidade para se conhecer melhor o que algumas dessas entidades estão realizando Brasil afora.
Presenciei uma cena insólita na sessão de cinema em que eu estava para assistir “A Festa da Menina Morta”, de Matheus Nachtergaele. O filme começou a ser exibido, acompanhado – como de praxe nos longa metragens brasileiros - do desfile de logomarcas das empresas patrocinadoras. Até que a voz de um senhor vinda do fundo da sala quebrou o silêncio: “Caral@#…que demora!”, gritou sem cerimônia, enquanto alguns logos ainda faziam a festa na tela.
O impaciente espectador não foi nada educado, mas verbalizou o que deve ser o pensamento da maioria dos espectadores quando assiste aos nossos longas.
O Educine realiza neste mês, em São Paulo, o primeiro módulo do seu curso de direção de arte em cinema. Informações com Daniela Castilho pelo emaildanielacastilho@gmail.com.
O Festival de Cinema de Berlim teve abertura ontem, quando os membros do júri da competição oficial participaram de uma coletiva de imprensa. É interessante observar, em suas declarações, que a conversa sobre cinema foi bem além dos filmes em si.
O cineasta Gaston Kaboré, de Burkina Fasso, lembrou da importância de se fazer filmes na África: “Há gente que morre todos os dias no mar, tentando ir para a Europa. Talvez o cinema seja um modo de dizer a eles que não é uma desgraça ter nascido na África”.
Já Wayne Wang, mais conhecido no Brasil pelo filme “Cortina de Fumaça”, defendeu filmes de baixo orçamento e a utilização de canais alternativos de exibição e distribuição, como o You Tube. O cineasta – cujos dois últimos filmes foram rodados em digital – citou um novo tipo de câmera, a flip (de valor menor que U$100) e defendeu que quantidades desse equipamento fossem compradas e enviadas à África “para que as pessoas lá possam falar as coisas do seu ponto de vista”.
Presidente do júri, a atriz oscarizada Tilda Swinton afirmou que não adianta os festivais de cinema revelarem novos talentos e bons filmes se as distribuidoras não comprarem esses títulos e os lançarem no mercado, ajudando a formar o público para um outro tipo de cinema.
Cinema enquanto expressão de identidade cultural. Democratização do acesso ao ato de filmar. Novos canais de exibição. Formação de público. São questões emblemáticas de uma nova pauta para a questão audiovisual, que vai além da mera produção. É bacana observar que esse tipo de discussão chegou a um dos três mais importantes festivais de cinema do mundo. Seria mais bacana ainda se essas discussões fossem mais fomentadas aqui no Brasil, onde o sistema de leis de incentivo e os editais de secretarias pouco contribuem para que o foco do setor audiovisual seja tirado da produção.
A FGV/RJ iniciará no dia 02 de março o curso Film & Television Business – Formação Executiva em Cinema e TV. Na pauta, gerência e liderança de projetos para TV e Cinema, etapas do processo executivo de uma obra audiovisual, técnicas de negociação de uma produção e história do cinema e da TV no Brasil. Maiores informações aqui.
A Fox investiu cerca de 130 milhões de dólares para produzir “Austrália” e a Tourism Australia mais 32 milhões em uma campanha publicitária para atrair mais turistas ao país, tendo o filme como eixo central. A ação envolvendo cultura e turismo foi planejada em conjunto pelas duas empresas. Mas algumas semanas após a estréia do filme, analistas internacionais começam a questionar se a aposta não foi alta demais.
Na Austrália, o filme rendeu 29 milhões em seis semanas, colocando-o como segunda maior bilheteria no país nos últimos doze meses, atrás apenas do último Batman. Nos EUA, os números decepcionaram e até agora o filme arrecadou cerca de 48 milhões, incluídos na bilheteria mundial de cerca de 83 milhões até o momento. Tudo indica que a Fox vai conseguir apenas recuperar o valor gasto na produção, mesmo com as críticas em geral demolindo (com razão) o épico romântico de Baz Luhrman.
Mas ainda resta saber se a Tourism Australia conseguirá atingir seu objetivo de atrair mais turistas, estrangeiros ou não. A infeliz coincidência de o lançamento do filme ter ocorrido pouco tempo após a confirmação oficial da crise econômica não deverá ajudar.