Museums and the Web é uma conferência realizada anualmente pelo Archives & Museum Informatics para discutir as potencialidades que a internet oferece para ações e projetos realizados por instituições museológicas. Algumas dessas iniciativas recebem o prêmio Best of the Web, cujos resultados para 2010 foram recentemente anunciados. Vale bastante a pena visitar os sites de todas elas, inclusive como demonstração de que os museus brasileiros ainda estão a anos-luz de saberem aproveitar o universo virtual como um canal de diálogo com o público e de extensão de suas atividades. Me lembrei imediatamente do Encontro Paulista de Museus de 2009 (cujos vídeos podem ser acessados aqui), que conseguiu a proeza de passar longe do tema durante seus três dias de muita pompa e solenidade.
O PhilaPlace (menção honrosa na categoria “educação”) é um site totalmente interativo desenvolvido pela Historical Society of Pennsylvania que utiliza uma série de recursos multimídia para permitir que o visitante faça uma espécie de viagem por diferentes lugares e períodos de tempo na Filadélfia. O resultado não somente estabelece uma conexão dos moradores com a história e a herança cultural da cidade onde residem, mas também estimula-os a colaborar com o site adicionando suas histórias e impressões pessoais em diversos formatos (como vídeos, fotos e textos).
Pensando num mercado cultural que cada vez mais dispensa os intermediários nas cadeias de produção e na maioria de autores que têm suas obras recusadas pelas editoras tradicionais, a Bubok foi fundada em 2008. É uma editora espanhola que criou um modelo de negócios a partir do oferecimento da possibilidade de qualquer um auto-publicar seu livro, sem custos, dentro de um processo simples e feito totalmente por um site. O autor envia um arquivo com o texto, escolhe tamanho/papel/capa/encardernação e decide o preço final de venda em dois formatos: impresso e digital (o custo de produção é embutido no cálculo). O livro passa a compor o catálogo da Bubok, e 80% da receita é do autor.
A editora apresenta-se ainda como canal de venda alternativo para publicações de empresas, instituições de ensino, professores e até mesmo outras editoras. Todos esses grupos podem ter uma página específica dentro do site, como já tem, por exemplo, a Biblioteca Nacional da Espanha.
Experiência interativa será arma na conquista do leitor de revistas digitais
Enquanto o meio editorial ainda tenta lidar com a chegada do Kindle e outros aparelhos de e-reader, e aguarda para ver se o hábito de leitura de livros digitais ficará ou não na promessa, outras iniciativas em andamento parecem sinalizar que é apenas questão de tempo para a tendência se transformar em realidade.
No início do mês, a Consumer Electronic Show, maior evento de eletrônicos do mundo que ocorre em Las Vegas, apresentou os primeiros modelos de tablet. O aparelho é uma espécie de prancheta eletrônica que, entre outras funções, permite folhear, com o toque na tela, páginas de livros digitais. O fato de a tela do aparelho ter cerca de 12 polegadas apresenta-se como um possível atrativo para tornar a leitura digital mais agradável do que nos pequenos e-readers ou nos computadores.
Já na Espanha, o ambicioso Plan Escuela 2.0 tem um prazo até abril para que 392.000 alunos e 20.000 professores do ensino fundamental tenham um computador portátil pessoal para ser utilizado em sala de aula como parte integrante e essencial do processo educacional.
Mas o que impressiona mesmo é assistir o vídeo abaixo. Ele foi realizado pela Bonnier, uma mega-corporação suíça de mídia que agrega cerca de 175 empresas e opera em mais de 20 países. Trata-se de um projeto de pesquisa corporativo e colaborativo, com o objetivo de mostrar algumas possibilidades futuras de leitura de revistas digitais. Para quem não entende inglês, as impressionantes imagens falam por si.
Matéria de hoje no jornal Folha de S. Paulo mostra a aposta de algumas editoras brasileiras no sistema de impressão sob encomenda, que permite que títulos fora de catálogo ou com menor apelo de vendagem possam ser oferecidos aos interessados, via impressão digital. Nos EUA, a venda de títulos sob encomenda aumentou 132% no ano passado, enquanto a venda de livros “tradicionais” teve queda de 3% (segundo dados da Publishers Weekly). Mais um exemplo de reconfiguração dos modos de produção, distribuição e acesso dos produtos culturais, a partir do avanço das tecnologias digitais.
A grande Cleyde Yáconis, em matéria do caderno Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo (27/09), aponta outra possível causa (que não os preços altos) para a diminuição de público nos teatros:
“Os restaurantes estão cheios. A pizza de sábado entra no orçamento da casa, e o teatro não. É uma opção: ou você satisfaz o estômago, ou o intelecto.”
Ronaldo Lemos, em sua coluna Internets no caderno Folhateen, também na Folha (28/09):
“A guerra contra a pirataria não vai ser vencida no campo da repressão. Vai ser vencida no campo da economia, com novos modelos que façam sentido para o consumidor digital.”
A indústria fonográfica perdeu mais um round na luta contra o download ilegal de músicas. A RIAA (Recording Industry Association of America) anunciou no mês passado que não irá mais perseguir os internautas que baixam música ilegalmente da internet. A intenção agora é criar estratégias de punição a esses consumidores em parceria com os principais provedores de acesso à internet. Quando até os próprios artistas estão se rebelando contra o monopólio das gravadoras, é sinal de que os tempos para a indústria da música são realmente outros.
Duas notícias recentes são bastante emblemáticas do momento em que se encontra o mercado fonográfico, cada vez mais ameaçado pelo comportamento dos consumidores e artistas diante das novas tecnologias digitais, que vêm reencenando o modo como a música é produzida, difundida e consumida, além de alterar o relacionamento de músicos com as gravadoras.
A cantora Janet Jackson, um dos principais nomes da música pop americana, comunicou seu desligamento amigável, por iniciativa própria, da gravadora Island Def Jam. O mais surpreendente foi descobrir que ela não pretende buscar outro selo. Um comunicado oficial informa que a artista “terá autonomia sobre sua carreira, sem as restrições do sistema de uma gravadora”. Ainda segundo o texto, “a saída de Janet da Island faz dela uma das primeiras estrelas a ter liberdade individual para promover seu trabalho através de diversos caminhos como iTunes, celulares e outros canais diversos e inovadores”. Meses atrás, a cantora já havia manifestado publicamente sua insatisfação com a pouca divulgação que a gravadora teria dado ao seu último album, “Discipline”, lançado em fevereiro passado.
Em um discurso ontem na Royal Television Society, o secretário de Cultura do Reino Unido, Andy Burnham, demonstrou novamente a preocupação do governo com a qualidade e o futuro da televisão pública britânica, devido à explosão da internet nos últimos anos. Ele também acenou para uma tendência do governo de tentar estreitar a regularização do conteúdo veiculado no espaço virtual, embora não tenha exemplificado como isso pode ser feito em termos práticos.
Segundo ele, o crescimento do universo online trouxe duas “tendências perigosas” para a televisão pública . Uma delas seria o fato de os canais tentarem introduzir em sua programação o mesmo tipo de conteúdo produzido por usuários que é característica do espaço virtual. “A internet é uma fonte excelente de opinião casual. Televisão é onde as pessoas normalmente procuram pela opinião de especialistas ou autoridades”, disse ele, que teme pela perda da imparcialidade e confiança que normalmente são atribuídas aos canais de tv no Reino Unido. Credibilidade essa que também está no centro da polêmica envolvendo a permissão nos programas televisivos do que aqui no Brasil é comumente chamado de merchandising: a prática de anuciantes pagarem para terem seus produtos exibidos ou comentados nos mais diferentes tipos de programas.