Um conhecido meu, de quem me afastei há anos, tinha uma característica peculiar: Ele só parecia ficar feliz quando o assunto era a desgraça alheia. Em turmas circunstanciais falávamos de futebol, família, política, trabalho, quando em tom ameno ele sempre resmungava algo ou se mostrava mau humorado. Quando o tema passava para uma tragédia, tipo um avião que caiu ou uma pessoa conhecida que estava com câncer, ele parecia se iluminar e com mal disfarçado sorriso relatava histórias similares e fava conselhos do que deveria ter sido feito (sim, também era sabe tudo). Demorei foi muito para me afastar de tanta energia negativa.

Por que essa criatura que não vejo há uma década me veio à tona? Por causa do comportamento parecido do despresidente Jair Bolsonaro. De temperamento explosivo e postura eternamente agressiva e grosseira, Bolsonaro tem momentos públicos de alegria e risos. Mas, fui rever alguns deles e me dei conta que quando Jair está exultante é porque está ridicularizando, humilhando, ofendendo ou ironizando alguém.

Pode conferir: Nss lives, quando tripudia da dor alheia ou fala alguma barbaridade preconceituosa de gênero, classe ou raça, abre sempre um sorriso, por vezes gargalha. Em uma live, aos risos, já imitou alguém com falta de ar, se referindo à Covid que já matou quase meio milhão de brasileiros e brasileiras.

Na campanha, falou sobre os negros pesados em arrobas que não serviam nem para reproduzir, entre risos dele próprio e da plateia de iguais que o ouvia. Também na campanha alegremente pegou um tripé de câmera e o fez de fuzil falando que queria “metralhar a petralhada”.

A alegria dele é esse. Humilhar, ofender, agredir. Só consegue ser feliz vendo o ridículo e a desgraça das outras pessoas. Pena que não é o único. Tanto que se sente representado pelo “tiozão de churrasco”, aquele que só se sente a vontade de contar uma piada que ridicularize mulheres, negros, índios, LGBTs.

A filósofa alemã Hannah Arendt, ao se referir sobre o comportamento dos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, escreveu sobre a banalidade do mal. Na qual defendia que o mal não é uma força metafísica, algo por si próprio, maior que a vida cotidiana, mas sim algo que existe por questões políticas e históricas, pontuando que muitos dos nazistas transformaram o mal em uma maneira burocrática de ascensão. Sabemos disso no Brasil, pois temos todos na família ou de alguma maneira próximo um exemplar do citado tio do churrasco que da mesma forma que prepara uma picanha como ninguém, fala abertamente que pretos periféricos são bandidos e tem que morrer mesmo.

No Brasil, além da banalidade do mal consolidada pelo bolsonarismo/milicias, temos ainda a “felicidade do mal”, no qual quem o pratica ainda ri e debocha, seja em grupos de zap, redes sociais ou lives presidenciais. O Brasil de hoje é complexo demais até para a genial Arendt.

 

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