“Num sentido geral, sou um homem realizado e feliz desejando viver mais alguns anos para poder realizar os planos que tenho de servir, de ser mais útil ao Rio Grande do Norte.” (Últimas palavras de João Medeiros Filho, ao Projeto MEMÓRIA VIVA, da UFRN, levado ao ar pela TV – Universitária, citadas no livro “Relembrando João Medeiros Filho”, Organizado pelo Prof. João Batista Pinheiro Cabral – Coleção Mossoroense – série c – vol. DCL – 1990 – pág.36)

 

Se como quer Ortega y Gasset, “os indivíduos, à semelhança das gerações têm destino preestabelecido, do qual se não podem afastar, sob pena de censura da sociedade”; o advogado João Medeiros Filho foi um homem de vanguarda para sua época. Cidadão Norte-rio-grandense e natalense, por outorgas da Assembleia Legislativa Estadual e Câmara Municipal de Natal, teve por genitor o comerciante João Medeiros Santiago e D. Clara Sampaio de Medeiros. Entretanto, a sua infância e parte da adolescência foi vivida na cidade de Guarabira, onde seu pai exerceu a profissão de comerciante. Foi exatamente nessa importante cidade do brejo paraibano que o nosso homenageado adquiriu os valores essenciais à sua vida, os quais, além de moldar o seu caráter, serviram de sustentáculo à profícua e valorosa existência.

Comentam os mais antigos que o Dr. João Medeiros Filho, aos 12 anos de idade tornou-se o orador oficial da cidade de Guarabira, fenomenal, portanto, tendo sido o seu prefeito aos 22 anos.

Estudou em Natal, precisamente no Colégio Santo Antônio, onde concluiu o curso primário, obtendo sempre as melhores notas, sendo um dos primeiros de sua classe.

Após a conclusão do curso primário, transferiu-se para o Colégio PIO X, em João Pessoa, que serviu de trampolim aos exames parcelados no Liceu Paraibano, com certeza o educandário de maior prestígio e rigor preparatório da capital tabajara.

Terminados os estudos no Liceu Paraibano, decidiu estudar Direito, matriculando-se na tradicional Faculdade de Direito do Recife, para, mais tarde, interrompê-los, viajando para o Rio de Janeiro, onde ingressou na Escola Militar do Realengo para ali cursar apenas dois anos, pois ao verificar que a sua vocação destinava-se às letras jurídicas, retorna ao Recife e retoma o Curso de Direito que fora interrompido anteriormente. Dispensável dizer que na tradicional Escola do Direito do Nordeste, o Dr. João Medeiros Filho revelou-se um profundo estudioso dos autores clássicos do Direito e das demais ciências sociais que lhe dão suporte. Estudou os grandes mestres. Leu os melhores clássicos da ciência jurídica e da literatura brasileira e universal, daí a sua sólida cultura.

Concluído o Curso de Direito e graduado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Recife no ano de 1927, turma CENTENÁRIO DA FUNDAÇÃO DOS CURSOS JURÍDICOS NO BRASIL, o jovem bacharel torna-se logo atuante advogado. Em seguida foi nomeado Promotor Público de Jardim do Seridó até 1930, tendo passado também pela Comarca de Cajazeiras, por um pequeno período. Ainda no ano de 1930 retorna ao Rio grande do Norte onde foi nomeado Segundo Promotor da Capital, até ser exonerado pelo então Interventor Mário Câmara, por questão de natureza política, comentou-se.

Irrequieto, ardente nas suas emoções e de temperamento dinâmico, aceitou o convite para exercer as funções de Delegado de Ordem Social do Estado da Paraíba. Iniciado o Governo Constitucional de Argemiro de Figueiredo, foi nomeado Secretário da Segurança Pública, que na época era designado Chefe de Polícia. No vizinho Estado exerceu também os cargos de Prefeito de Guarabira e Diretor do Jornal A UNIÃO, o órgão oficial daquele Paraíba.

Mas, tratando-se de Dr. João Medeiros Filho, de personalidade forte, tudo poderia acontecer. Tanto, que foi nomeado no mesmo ano de 1935, pelo Governador Rafael Fernandes, do RN, Chefe de Polícia do Estado do Rio Grande do Norte.

E justamente nesse cargo é que o nosso homenageado enfrentou certamente, os momentos mais difíceis de sua exuberante trajetória de homem público.

Sobre esse histórico episódio, narra o escritor João Batista Pinheiro Cabral, organizador do livro RELEMBRANDO JOÃO MEDEIROS FILHO – DA Coleção Mossoroense – Série Ce – Vol. DCL-1990, À FL.19:

 

 “(…) Foi nessa função que João Medeiros Filho enfrenta os      duros acontecimentos de 1935 a chamada Intentona Comunista.

Nessa ocasião, com grande risco de vida, ele enfrentou    com altivez e com dignidade as vicissitudes do breve, mas sangrento Governo Comunista que se instalou em Natal. Os violentos episódios da insurreição comunista de 1935, que o levaram ao cárcere e quase conduziram ao encontro de um pelotão de fuzilamento, estão magistralmente narrados em dois de seus     livros, que se intitularam MEU DEPOIMENTO (SOBRE A         INTENTONA COMUNISTA), 1941 E 82 HORAS DE SUBVERSÃO (INTENTONA COMUNISTA), 1980. Neste último trabalho o autor responde, inclusive, às interpretações de Nelson   Werneck Sodré a respeito do Movimento Comunista de 1935 no       Rio Grande do Norte, levando a vantagem de haver ele mesmo vividos graves momentos históricos como Chefe de Polícia, como  prisioneiros dos sediciosos e como condenado à   morte, situação da     qual se livrou, em grande parte pela altivez com que enfrentou os seus captores (…)”. 

 

Disse Woden Madruga, na sua coluna denominada Jornal de WM, da Tribuna do Norte, do dia 30 de julho de 2004, que:

 

 “(…) João Medeiros Filho exerceu no governo federal o cargodo Inspetor do Ensino Secundário e Diretor da Polícia Civil, em Brasília. E ainda: Consultor Jurídico da Confederação Nacional do Comércio, no Rio de Janeiro. Presidiu o Conselho      Seccional da OAB/RN e o Instituto dos Advogados deste Estado”.

 

Aproveitando outros trechos da mencionada crônica de Woden, que no entender do escritor e acadêmico Jurandyr Navarro é digna de uma antologia, destacamos:

 

“(…) Foi um dos maiores criminalistas no Rio Grande do Norte. Sua atuação no Tribunal do Júri enriquece a história       jurídica do Estado. Um orador arrebatado, veemente, convincente. Fez história, sim senhor. Veríssimo de Melo, seu companheiro da Academia de Letras, das tertúlias literárias, disse em letra de           forma: “Ninguém se parece com João Medeiros Filho. Ele é único. Falando ou escrevendo é inconfundível. Prima pela correção e elegância da linguagem. Bom humor constante e fina ironia de comentários e críticas são outras tantas delícias de sua verve quotidiana…”.

 

De sua vez, o seu grande amigo Ticiano Duarte, em artigo publicado no Diário de Natal em homenagem ao Centenário do Nascimento do grande jurista, também na edição do dia 30 de julho de 2004, com rara felicidade assim se manifestou sobre o idolatrado Mestre:

 

 “Este 30 de julho é o centenário de nascimento de João Medeiros Filho. Um paraibano que aqui chegou jovem, recém formado em Direito, iniciando uma carreira profissional e pública, digna de registro, pelo talento, cultura, marcada, sobretudo, pelo amor ao Rio Grande do Norte, sua história e seu povo.

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João Medeiros Filho constituiu uma família numerosa, com seus dois casamentos. Em segundas núpcias com a professora Etelvina Emereciano, filha do velho Montano, irmã da inesquecível figura de professor e advogado José Idelfonso Emereciano.

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Campina Grande se considerava rei ‘porque era dono de tudo, das jabuticabeiras, dos umbus, das calçadas’… Mas em Natal  homem maduro, foi de uma personalidade e de um talento que o colocaram nos escalões mais altos da vida profissional, pública e cultural.

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O espaço é pequeno para evocar sua presença inteligente, culta, em nossa terra. Brilhante orador do júri popular, jornalista     de texto primoroso, de conversa excelente, boêmio e amigo fiel. Jurista respeitado, com teses de direito publicadas. Escritor, escreveu ‘Contribuição à História Cultural do Rio Grande do      Norte’, entre outras obras.

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O Mestre Cascudo a seu respeito disse: ‘João Medeiros tem todos os valores que proclama desertos de sua atividade, o brilho      verbal, a originalidade dialética, a documentação oportuna, o equilíbrio do estilo, a nitidez do argumento’.

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Trouxe para nós todos, enquanto viveu a presença solidária e a coragem cívica, o destemor que marcava um temperamento de força, às vezes polêmica, mas seguramente honesto, sempre a serviço das grandes causas do nosso povo.”.

 

O escritor e acadêmico Jurandyr Navarro, um dos admiradores permanentes do homenageado, preleciona:

 

 “(…) Orador e conferencista. Como tribuno empolgava pela    eloqüência. Às vezes usava sátiras mordazes contra seus contendores. Possuía uma verve insuperável. Falava de braços soltos em qualquer ambiente. Não havia flutuações na sua oratória, sempre brilhante toda vez que a usava. Para ele não havia dia aziago quando usava da palavra, audaz e serena, carregada de         entusiasmo e de sabedoria.”

 

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                        Reclamavam vez ou outra, da sua aparente arrogância intelectual. Mas, no relicário do seu espírito agasalhava a humildade, a simplicidade e a bondade.

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                        Pertenceu a todas as instituições que fazem à inteligência do       Estado…” (Do livro Rio Grande do Norte – ORADORES – 1989-     2000, FL.327).

 

Já o livro 400 NOMES DE NATAL, da Coleção Natal 400 Anos, editado pela Prefeitura Municipal de Natal, no ano 2000, com a coordenação da professora Rejane Cardoso, enaltece:

 

 “(…) João Medeiros não foi, porém, apenas o profissional exemplar, no campo do Direito. Intelectual de renome, deixou          algumas dezenas de livros publicados na área jurídica ou no campo da literatura. Casado duas vezes, a primeira com d. Maria de Lurdes Fernandes e a segunda com d. Etelvina Cortês Emereciano, deixando dois filhos do primeiro casamento e seis do segundo,     desses, apenas dois seguiram os seus passos, como advogados: Jomar Fernandes, do primeiro matrimônio, juiz de direito; João             Medeiros Neto, procurador aposentado da UFRN. Uma das        paixões de João Medeiros foi a praia da Redinha, onde viveu os      últimos anos de sua vida, em intensa atividade intelectual. Seu   amor pelas letras, valeu-lhe a eleição para a Academia Norte-rio-         grandense de Letra e para o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. A estrada que liga a vila de Igapó à praia da             Redinha tem nome de Av. João Medeiros Filho em homenagem ao grande jurista e escritor(JL)” – fl.381/82.

 

O jurista e professor de Direito Ivan Maciel de Andrade, em magnífico depoimento publicado na TN, assim descreve JMF:

 

“O nosso Estado tem uma bela tradição de competentes e brilhantes advogados. Um deles, um dos mais completos profissionais do Direito que conheci até hoje, foi João Medeiros Filho. Era um dos melhores tribunos do júri – se não o melhor – de todo o Brasil. Atuava quase só na defesa e era nessa tribuna que exibia suas mais notáveis qualidades: profundo conhecimento do Direito Penal, presença de espírito para respostas mordazes de efeito arrasador sobre os adversários, um poder de persuasão irresistível, carismático, quase hipnótico. Conseguiu em alguns julgamentos memoráveis, reverter e inverter expectativas, absolvendo réus que já tinham sido antecipadamente condenados pela opinião pública. Além disso, atuava com erudição e mestria em todos os demais campos do Direito.”

 

A clara evidência, a obra do Mestre é notável. Avançado para sua época, pois escrevendo sobre assuntos diversos conseguiu consolidar a sua produção cultural nos mais variados campos do conhecimento humano. Dir-se-ia que João Medeiros, na intelectualidade, foi um clínico geral, tal a diversidade dos assuntos abordados, todos eles com rigor técnico e revestidos de ampla maturidade. A sua produção teve início com NOTAS DE UM PROMOTOR PÚBLICO – Imprensa Oficial – Natal – 1933, seguindo-se: ELOGIO DO JURISTA – Imprensa Oficial – Natal – 1936; MORTE POR ELECTROPLESSÃO – Epitácio Cia – Natal – 1937; MEU DEPOIMENTO (Sobre a Intentona Comunista de 1935) – Imprensa Oficial – Natal – 1937; DEBATE JUDICIÁRIO EM TORNO DO PROBLEMA DA LEPRA – Tipografia Augusto Leite – Natal – 1941; DISCURSOS E CRÔNICAS – Tipografia Augusto Leite – Natal – 1941; O DEVER DO ADVOGADO EM MATÉRIA CRIMINAL – A. Coelho Branco Filho – Rio – 1943; AÇÃO DE RESCISÃO DE CONTRATO – A. Coelho Branco Filho – Rio – 1943; TERRAS DEVOLUTAS – Tipografia Comercial – Natal – 1943; LIQUIDAÇÃO DAS DÍVIDAS DOS PECUARISTAS – Imprensa Oficial – Natal – 1950; ANULAÇÃO DE CASAMENTO POR DOENÇA MENTAL – Tipografia Galhardo – Natal – 1951; APOSENTADORIA COMPULSÓRIA DE MAGISTRADO – Tipografia Galhardo – Natal – 1952;  REAJUSTE PECUÁRIO – José Konfino – Rio – 1953; ERRO ESSENCIAL DE PESSOA – José Konfino – Rio – 1954; O DIREITO E AS CIÊNCIAS BIOLÓGICAS – Publicação da Faculdade de Direito de Recife – 1958; CEDERNOS DO MINISTÉRIO PÚBLICO – Imprensa Oficial – Natal – 1966; IMPEACHMENT E CRIME DE RESPONSABILIDADE DOS PREFEITOS MUNICIPAIS – Editora Resenha Universitária – São Paulo – 1977; e tantos outros de igual expressão científica e literária.

 

Na verdade, o Dr. João Medeiros teve uma existência marcante sob todos os aspectos: jurista, historiador, jornalista por vocação, pesquisador, fundador e membro de academias, em muito valorizou o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, tanto que, várias de suas obras pertencem ao acervo desta vetusta Instituição. Certa vez o Ministro Seabra Fagundes disse-me em Belo Horizonte: “João Medeiros Filho é um dos melhores Advogados que eu conheci”. Também para o desembargador Ozias Nacre Gomes, da UFPB- “Dr. João Medeiros honra a classe dos advogados pelo talento, pela cultura jurídica e pela universalidade de sua cultura”. De sua vez, o escritor e poeta Nei Leandro de Castro, no seu Romance “Em Tempo de Rebelião – AS DUNAS VERMELHAS” – destaca a envergadura intelectual do nosso homenageado, conforme se observa às páginas 149, e seguintes.

 

Desejamos dizer, que tivemos o privilégio de ter convivido com o Dr. João Medeiros Filho durante os seus últimos vinte anos de vida. Ao passar do tempo, o velho Mestre continuava o mesmo: atento, produtivo, brilhante professor de Direito e de lições de vida. Ao lado dele aprendemos a defender o direito dos outros, especialmente, dos menos favorecidos. É dele o ensinamento que vale para todos: “Não digo que o meu cliente é santo ou demônio, entretanto, exijo que seja respeitado o seu direito”.

 

No próximo dia 30 de julho o Dr. João Medeiros Filho que nasceu no ano de 1904, na cidade de Campina Grande, completaria 112 anos de trepidante existência. Se Câmara Cascudo considerava Natal “a noiva do sol” para João Medeiros certamente Natal seria a sua amante.

 

Crédito da foto: Jornal Zona Sul