À beira-mar, na costa de Areia Branca/RN, um certo dia, eu estava olhando mensagens no celular, quando vi uma foto da escritora Flávia Arruda, a Flavinha, no status duma rede social. “Que imagem diferente… estilosa”, eu pensei assim mesmo. A autora de As Esquinas de Minha Existência (Editora Sarau das Letras, 2015) estava lançando um ensaio fotográfico nos aplicativos das grandes redes sociais virtuais. Soube depois, pelo escritor contista Raí Lopes, que era um ensaio do tipo boudoir, que é a designação atual para ensaios fotográficos sensuais femininos. No caso de Flavinha, pareceu-me que foi um ensaio para si mesma, em celebração à sua liberdade, como uma nova forma de expressar sua poesia. Foi uma primeira impressão. Depois descobri que era, na verdade, o surgimento da nova Flávia, a poetisa, agora muito mais poeta do que a cronista da existência de suas esquinas, ou das esquinas da sua existência, como bem diz o título de seu livro.

De fato, o tal ensaio era pura poesia. Ela publicou um poema seu para cada foto. E, muitas vezes, já não se sabia o que era mais poético: os versos ou as imagens. Verso-imagem e imagem-verso se tornaram complexos indissolúveis, coisas que somente o mundo encantado da literatura tem o poder de criar. Porém, ela não parecia preocupada em expressar a sensualidade, mas sensualidade havia. E não se sabia exatamente onde o toque sensual se encontrava, mas era possível senti-lo. Um enigma se formava a cada foto. Suas poses e seus olhares esbanjavam poesia, mas, contraditoriamente, ela não se mostrava interessada em ser um modelo poético. E, então, o que lhe fazia uma fêmea poética? Isso era preciso decifrar. E quem poderia?

O chamamento à decodificação da nova poesia de Flávia estava no seu olhar. Mesmo quando não estavam voltados diretamente ao espectador atento, os seus olhos pareciam estar dizendo-nos: eu estou aqui, sou puro poema… decifre minha poesia… ou eu vou devorá-lo! E esse devorar não tinha o sentido de que ela iria consumir o corpo e a alma do admirador, mas, ao contrário, era um convite para que ele mesmo vivenciasse a própria inquietude ante a incapacidade de ver a poesia e a sensualidade do complexo verso-imagem e não ser capaz de decifrar o núcleo de onde emergiam os raios de sua existência; era um aviso, dizendo: a nova Flávia é um mistério. Realmente, a Flávia nova, a poetisa, é um enigma que incita um certo desejo de querer mais de sua arte.

Não se pode apontar, de tudo isso, que o nascente estilo boudoir de nossa poetisa é um análogo poético da Esfinge de Tebas. Os enigmas emanados do complexo imagem-verso da nova Flávia não resultam em tragédias. Ninguém terá sua carne literalmente devorada ante a incapacidade de decifrá-los. Muito menos cometerá suicídio o ser de quem os mistérios foram desvendados. A nova Flávia é simplesmente um mistério. Apenas isso.

E, parece-me, para incitar e intrigar mais os que ainda se atrevem a tentar decodificar todo esse quebra-cabeças poético, Flavinha recentemente resolveu não usar mais óculos e publicar vídeos, recitando seus poemas e penetrando em nossas almas com maior vigor. A nova Flávia, a poetisa, agora se consolida como mais poeta do que cronista. Com um novo olhar, mais quieto do que inquieto, paradoxalmente, está com a alma mais agitada e menos calma, em turbilhões de odores, que exalam aromas de poesia; cheiros duma sensibilidade apaixonada e carregada de amor…

Será mesmo amor? Sua voz, sua fala mais mansa, exterioriza o redemoinho poético dessa nova Flávia, a poetisa, um nexo e “contranexo” em si mesma, que, soprando um vento fortíssimo, estremece seus arredores e os entornos de quem está do outro lado, fora da tela do celular, vendo-a lá dentro, poetizando a vida num falar sereno, tranquilo, e, ao mesmo tempo, invadindo o nosso espírito com suas palavras harmoniosas, seus versos livres e soltos, que descrevem imagens transcendentais.

A nova Flávia, a poetisa, fala duma saudade que ela tenta conter, e não consegue, deixando esse sentimento escapar por entre os dedos, tal lágrimas a rolar pela face. Questionando, muitas vezes, a si mesma, a nova poesia de Flávia direciona, como em vezes passadas, mas agora dum jeito ardente, suas saudades e emoções a um ser incógnito, que talvez exista apenas no universo das ideias, semelhante ao ser amado do imaginário de Riz Silva, a Poetisa do Norte. Mas, não se sabe, e nem se consegue supor, se o objeto da saudade da nova Flavinha, a poetisa, é o seu ser amado no sentido carnal, tampouco é possível saber se é um ser a quem se direciona outras formas de amor e paixão. Volto, pois, a dizer: a Flávia nova é um mistério.

E, entre esses exatos enigmas e mistérios, mistérios e enigmas, verso e imagens, e imagens e versos, ouvi dizer que justamente o famoso escritor contista potiguar Raí Lopes, o mesmo que me apresentou o termo boudoir, sabendo de minha devoção por Nossa Senhora do Perpétuo Socorro desde os tempos em que eu era salmista da Igreja Católica Romana, resolveu pedir à adorável santa que o ajudasse a descobrir quem é essa nova Flávia, a poetisa?

Assim, então, pergunto: quem saberá? Digam-me!

 

DOM MARCELO
(Marcelo Almeida de Mendonça)
é médico-anestesiologista e escritor da Editora Sarau das letras
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