Em sua última entrevista, o escritor argentino Jorge Luis Borges falou sobre a infância, a cegueira, a morte e, como não poderia deixar de ser, de sua relação com os livros. A entrevista foi concedida ao jornalista Roberto D’Ávila, em 1985. Borges morreria alguns meses depois. Quando perguntado sobre “as grandes sensações de sua vida”, disse o autor: “São as grandes sensações da vida de todo homem. O amor, a amizade, a leitura, o gosto por escrever”. Assim traduz seu amor pela literatura: “Se recuperasse a visão eu não sairia de casa. Ficaria lendo os muitos livros que estão aqui, tão perto e tão longe de mim”. Borges começou a perder a visão após os 50 anos, em decorrência de uma doença genética. Suas primeiras memórias são da biblioteca de seu pai. “Não me recordo de uma época em que não soubesse ler e escrever”, diz o escritor que também foi diretor da Biblioteca Pública Nacional, em Buenos Aires. A entrevista está disponível no site da Revista Bula.

Após a leitura dessa entrevista, fiquei me perguntando como teria sido a última entrevista do jornalista e escritor Pinto Júnior, que nos deixou no último dia 18 de junho, vítima de complicações da Covid-19. Acostumado a entrevistar e colocar em prática diversos projetos voltados para a difusão da literatura produzida no Rio Grande do Norte, entre outros, a exemplo do Concurso de Poesia Zila Mamede, que resultou com a publicação de alguns livros. Com o amigo e também jornalista Cefas Carvalho, editor do Potiguar Notícias, Pinto Júnior realizou seis edições do concurso e lançou alguns livros com os poemas premiados.

O jornalista de origem baiana e criado na Paraíba, fincou raízes em nosso estado desde os anos 1990 e aqui fez história. Com sua partida precoce, aos 53 anos, deixou órfã uma legião de amigos e admiradores do seu incansável trabalho em prol da arte e da cultura do RN. Nas palavras de Cefas Carvalho: “Nascido em família humilde cujos filhos forjaram sua história através da Educação e do Trabalho”, Pinto Júnior “ergueu um jornal impresso que deu conta do recado por uma década. arquitetou um portal que se mantém, além de uma web tv e um programa já longevo na Band”.

Pinto Júnior foi uma das mais de 500 mil vítimas de uma doença para a qual já existe vacina. Foi mais uma das 500 mil vítimas da negligência de um governo negacionista e perverso que tem deixado rastros de uma tragédia sem par na história do nosso país. Foi mais uma das 500 mil das vítimas que não tiveram tempo de ser vacinadas. No dia em que foi sepultado, coincidentemente, houve manifestações pró-vacina e contra o presidente em todo o Brasil. Em São Paulo, oito quarteirões da Avenida Paulista foram ocupados pelos manifestantes. Um dia histórico. Um dia trágico. Nesse mesmo dia o Brasil atingiu a marca das 500 mil vítimas da Covid-19. Não são apenas números, como nos lembra o Memorial Inumeráveis, dedicado às vítimas do coronavírus no Brasil. São 500 mil famílias enlutadas. São 500 mil histórias interrompidas.

José Alves Pinto Júnior nasceu em Várzea Nova, na Bahia, passou a infância e a juventude na cidade de Nova Floresta, na Paraíba, mas foi na terra de Câmara Cascudo e Zila Mamede que deu vida aos seus mais ousados projetos jornalísticos e culturais. Casado com Irandi, companheira inseparável e parceira de trabalho, o jornalista deixou dois filhos: Ana Luísa e Pedro Henrique. Pai amoroso e presente na vida dos filhos. Deixou uma lacuna impreenchível no coração desses dois adolescentes que entrarão na vida adulta sem a presença alegre e afetuosa do pai.

Ao receber a notícia de sua partida, não pude deixar de lamentar meu desejo de conhecê-lo melhor e com ele partilhar alguns projetos literários. Afinal, ele era um entusiasta da nossa literatura e estava sempre disposto a apoiar e divulgar o trabalho dos nossos escritores. Nas poucas vezes em que nos encontramos, a conversa girou em torno da literatura potiguar. Jamais esquecerei seu sorriso largo e seu jeito acolhedor ao me receber no Alpendre do Potiguar Notícias. Não pude deixar de lamentar os encontros que teríamos para realizar a revisão do seu livro de poesia, a fundação da Academia de Letras de Parnamirim, a organização do seu livro de crônicas, entre outros. O isolamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus impediu diversos encontros que deveriam ter acontecido em 2020 e em 2021. Sinto muito por esses desencontros. Queria tanto poder tomar mais um café em sua companhia, meu amigo. Eu tinha tanto a aprender com você. Seria uma honra poder revisar seus dois livros…

Revisitando alguns livros, senti novamente a alegria de estar presente numa mesma antologia que você, amigo. Refiro-me ao livro “Contos e crônicas: coletânea UBE/RN” (Offset, 2019), organizado por José de Castro, que também assina a revisão. A propósito, tive a honra de revisar as duas crônicas que constam dessa obra ímpar para a literatura do RN, pois celebra os 60 anos da União Brasileira de Escritores – Seção RN, aliás, presidida pela primeira vez por uma mulher, Tereza Custódio, autora de dois romances, “O Bálsamo” e “O Baú de Filomena”, entre outros livros. Revisei ainda algumas crônicas e contos de outros amigos/autores antes de enviarem a versão final de seus textos para o organizador, que fez um trabalho primoroso, vale lembrar.

Voltemos ao dia de sua partida. Impossível descrever a sensação de abandono e impotência ao receber a notícia do seu encantamento, meu caro amigo. O desejo de que você continuasse aqui… O desejo de participar de alguns dos seus projetos e colaborar com o seu trabalho… Seu entusiasmo e sua alegria farão muita falta! Vai ser estranho chegar no Potiguar Notícias qualquer dia desses e não bater um papo contigo no alpendre onde você recebia com tanto carinho e atenção todos que por ali passavam. Aliás, em nosso último encontro, em janeiro desse ano, quando fui entrevistada pelo jornalista Otávio Albuquerque, você foi tão gentil ao dizer que tinha acabado de assistir minha entrevista e iniciamos uma conversa sobre literatura, mas também sobre a revisão do livro de poemas que você lançaria em breve. Também falamos sobre a partida do jornalista, escritor e crítico literário Nelson Patriota, que havia nos deixado há poucos dias. Ao final da conversa não pude abraçá-lo, em respeito ao distanciamento social recomendado pelas autoridades de saúde, mas expressei em palavras a alegria daquele reencontro. Jamais poderia imaginar que aquele seria nosso último encontro.

Você jamais será esquecido. São inúmeras as homenagens que vem recebendo no jornal que você idealizou e pelo qual lutou de forma tão aguerrida. Cefas Carvalho, Evandro Borges, Liliana Borges, Otávio Albuquerque foram alguns dos seus amigos que deixaram registrada a dor pela sua partida, mas também o agradecimento pelo privilégio da convivência e do aprendizado com esse homem ético, sensível, comprometido e inteiramente dedicado ao jornalismo que você foi. Como disse seu amigo Cefas Carvalho, você “cumpriu sua missão com louvor e assim será lembrado”. Agora, nos resta a saudade. Afinal, é preciso saber viver, mas também é preciso saber se despedir, parafraseando o autor de “Os olhos salgados”, “Minha mãe e o rato”, entre outros livros de contos, romances e poesia.

Para encerrar meu preito de saudade, dedico-lhe estes versos de Zila Mamede, poeta que você também amava e cuja memória exaltou em um concurso de poesia:

Quero abraçar, na fuga, o pensamento
da brisa, das areias, dos sargaços;
quero partir levando nos meus braços
a paisagem que bebo no momento.

Quero que os céus me levem; meu intento
é ganhar novas rotas; mas os traços
do virgem mar molhando-me de abraços
serão brancas tristezas, meu tormento.