Para quem não sabe sou professora de língua portuguesa, literatura, inglês e espanhol nas redes pública e privada do RN. Comecei minha carreira cedo, apesar de ainda não ter nenhuma formação. Comecei como quem vai fazer uma coisa que já se sabe, mas que descobre não saber, de fato, até estar inserida no processo. A experiência e a necessidade me fizeram professora antes da academia. E a sala de aula foi minha grande mestra.

Hoje, já com 44 anos, com muitas páginas de livros consumidas, muitas turmas, escolas e cursinhos, muitos cursos de formação, muita teoria e bastante prática, ainda estou aprendendo… Ensinar é um processo que não se finda, porque não se separa do aprender. E a escola pública é quem está me dando uma grande lição. Você vai ver por quê!

Durante essa pandemia eu aprendi mais que ensinei. E não estou falando aqui dos recursos tecnológicos, de novos fazeres pedagógicos, de novos ritmos de estudo, de novas práticas: remota ou híbrida. Estou falando do aprendizado social, do aprendizado humano, do aprendizado político que a pandemia nos obrigou a encarar, a analisar, a discutir e refletir sobre.

Semana passada eu falava sobre o escancaramento de preconceitos, do racismo e da falta de oportunidade para artistas LGBTQIA+. Hoje, falo sobre o escancaramento dos enormes abismos entre o ensino público e o privado. E também sobre a falta de oportunidades, de chances, de crescimentos, de igualdade e equidade sociais que esses abismos provocaram entre as/os estudantes desses seguimentos.

Há duas semanas a escola pública em que trabalho voltou às atividades presenciais. E não foi surpresa para nenhum de nós, professoras e professores, nos depararmos com alunas e alunos que, aparentemente, estavam ali para cumprir tabela. Adolescentes e crianças alheios aos conteúdos, perdidos entre uma série e outra. Adolescentes e crianças que estavam meio que entorpecidos entre dois mundos: um, paralisado pela pandemia; outro, que começa a se mover de uma forma a qual eles ainda não estão acostumados…

De um lado, adolescentes e crianças por trás de telas, as quais pouco contribuíram para o processo de ensino/aprendizado, além de professores e professoras que experimentaram o gosto amargo de, por mais que tenham tentado, fracassaram com a maioria dos pupilos; do outro, adolescentes e crianças perdidos nesse mesmo processo, da mesma forma que professoras e professores. Todos sem norte!

No meio das personagens dessa história, um grande hiato, uma grande fenda, um abismo, não só de conteúdos, mas de vivências, de socialização, de contato afetivo e físico com as outras pessoas.

Se compararmos com as escolas privadas (que sempre ofereceram mais recursos e cujos estudantes também têm mais “condições” de acompanharem as aulas diariamente, além de terem retomado as aulas presenciais muito mais cedo), as escolas públicas vivenciaram a desigualdade social desse país na pele.

O alunado da escola pública, em casa, muitas vezes, não tinha acesso à internet, ou a um aparelho celular compatível para assistir às aulas transmitidas pelo meet. Às vezes, havia um único celular para atender a três crianças (Como dividir o celular para todas elas?). Muitos não conseguiam abrir PDFs ou os formulários com exercícios ou provas enviados pelos grupos de Whatsapp; outros tiveram que, por necessidade financeira, arregaçar as mangas e trabalhar para ajudar na renda de suas famílias atingidas economicamente pela pandemia.

Seria estranho se entrássemos em sala de aula e nos deparássemos com alunas e alunos empolgados e estimulados… Essa desigualdade foi sentida por esses estudantes, foi sentida por seus pais. Suas famílias partilharam junto com as escolas a angústia de verem suas filhas e filhos tão perdidos no processo ensino/aprendizagem, por falta de investimento, por falta de acesso às tecnologias, por falta de um plano de educação robusto e eficaz por parte do MEC.

O que se esperar de um (des)governo que alimenta dia a dia essas desigualdades, além de mais abismos sociais? Afinal, pessoas sem educação perdem sua cidadania, perdem suas oportunidades, deixam chances grandiosas passarem porque são incapazes de vê-las. E infelizmente a escola pública (onde a maioria do povo brasileiro estuda) viu-se escancaradamente mais desvalorizada e mais sucateada, servindo como máquina fundamental a essa crescente política de desigualdade.