Saudações a todas as pessoas que acompanham essa coluna. Desejo paz, harmonia, serenidade e amor, apesar desse período obscuro no qual estamos imersos.

Nos últimos dias, discursos de ódio vêm me atravessando de uma maneira muito visceral, a ponto de, em uma sexta-feira dessas (dia em que morreu Roberta, aquela pessoa que foi queimada viva em Recife) eu entrar em pane dentro de casa.

Enquanto eu estava ocupada, trabalhando, imagens, discursos, memórias, foram se acumulando em minha cabeça, e em um dado momento, quase no final da tarde, quando eu resolvi baixar a tela do computador, tomar um banho e relaxar um pouco, a crise de pânico tomou conta de mim.

Meu corpo inteiro tremia, eu chorava compulsivamente e um medo imenso, um pavor, apoderou-se da minha mente e corpo. Havia uma sombra, uma nuvenzinha daquelas de desenho animado, densa e tempestiva pairando sobre mim.

Na minha cabeça, um mix de n discursos de ódio, de transfeminicídios, de violências tantas, de crueldades gratuitas, tão desumanas quanto possíveis; no meu corpo, a bala, o açoite, o fogo, a asfixia… Não sei explicar como, mas eu sentia… E desabei…

Por que estou revelando isso de forma tão aberta e sem filtros? Porque achei necessário compartilhar com vocês o que penso sobre o ódio e o que ele é capaz de produzir, além de convidar a todas as pessoas que me leem a uma reflexão.

Se por um lado o ódio produz intolerantes, assassinos, pessoas cruéis e desumanas, por outro ele produz, vítimas, extermínios, pânico, medo, insegurança. Ele produz adoecimento mental, síndromes de convívio social, inferiorizações e baixas autoestimas… Não produz nada de bom, em nenhum dos casos.

Porém, da mesma forma que esse ódio nos chega diariamente, há também os discursos de amor, que também nos chegam e que são tão poderosos, tão arrebatadores e certamente bem mais eficazes que aqueles que produzem (des)humanidades.

Digo isso porque foram discursos de amor que naquela sexta-feira dissiparam a nuvenzinha de desenho animado que pairava sobre mim, foi o amor que me tirou de dentro daquele furacão que arremessava sobre minha mente e corpo toda a violência sofrida pelas mulheres Trans e Travestis vitimadas por ela.

Minha sobrinha mais velha, Milca, foi a primeira a me puxar do lodo em que eu estava. Foi ela quem ouviu meu pedido de socorro e que disparou sobre mim o primeiro “Nós amamos você” (Ela sempre fala assim, acredito que pelo fato de ela ter transferido pros seus dois filhos esse mesmo amor, ou porque ela estava sendo a porta-voz da minha família, de uma maneira geral.)

Minhas manas do Mulherio das Letras Zila Mamede, Carla Alves, Kalina Paiva, Nádia Farias, Penha Casado (minha eterna professora), também me socorreram. Por vídeo-chamada estiveram ali, junto comigo, ajudando-me a transpor aquele momento e enchendo-me do antídoto que eu mais precisava: AMOR. Assim também como minha irmã Joecy, minhas sobrinhas Maísa (que estava em pós-operatório) e Isa com o mesmo remédio em suas falas, olhares, gestos e conselhos.

O amor é maior que o ódio, disso eu tenho certeza. Mas o ódio é violento, infelizmente. E deixam marcas muito profundas.

O ódio precisa ser combatido com amor, mas pra isso, o amor também precisa ser violento. Violento, sim, porém com outra conotação, de uma maneira avassaladora, imensa, tsunâmica, capaz de engolir o ódio e suas manifestações menos nefastas, para que as mais horrendas nem ousem se materializar.

O pastor Henrique Vieira, em seu livro O amor como revolução, diz “O amor, portanto, é não se conformar com o que impede a plenitude de vida do outro, é optar prioritária e preferencialmente pelas pessoas que são alvo das injustiças.” Então, que não nos conformemos com o ódio e suas manifestações, que optemos pela vida plena de todas as pessoas, sobretudo àquelas que são injustiçadas, que o amor possa ser essa grande revolução capaz de mitigar o ódio.

Se semana passada fiz um convite a fazermos uma revolução social no campo da empregabilidade, da oportunização e da naturalização da presença de pessoas Trans e Travestis no dia a dia da sociedade, hoje faço outro convite para outra revolução, a revolução dos bons sentimentos, a revolução que só o AMOR é capaz de encabeçar.

Parece utópico?! E o que seria de nós se não alimentássemos nossas utopias??!!