Rio Grande. Poesia. Do Norte. Brasil.

Ao iluminar o fim do século, os poetas cumprem a missão de formar, no papel em branco, a impressão que se tem da vida gráfica. Há poetas de diversas categorias, aglutinados em números, gêneros e graus, os mais diversos. Poetas de um verso só, quando um simples verso diz tudo. Poetas de quatro versos. Senhores das redondilhas trovadorescas. E poetas de muitos, muitos versos que se bifurcam no poema hermético. Às vezes, investe-se milhares de fonemas para deixar explícito – nada tenho a dizer. Quer dizer, tudo está dito. E feito a tiete dos lançamentos literários, o crítico foi em busca do autógrafo consagrado. “Máscaras de Papel” (Clima, 45 páginas, Dailor Vareta, 1987) pode ser lido como um canto à cor: “a muda paisagem da Mantiqueira, o fogão à lenha, o espelho da represa, o branco de papel, as tintas da solidão tipográfica, uma roupa invisível a olho nu, o impossível pião, preguiçosa paisagem branca e preta sobre o campo verde, a menina de blusa new wave, o desenho do teu nome, arco-íris, a claridade da manhã, luares, o papel crepom, o vermelho do teu batom, um mar de vidro, espaços noturnos, grafite, a fábula perfilada, nuvens, estrelas, um arlequim de Picasso, cais, borboletas amarelas, flores azuis, lápis de cor, cálices, avenidas, frutas, quadro negro, giz, ipês amarelos”, tudo gira colorido nos versos brancos de Dailor Varela. Cor = corpo = corporificação do poema pós-moderno. O que está em questão é menos a forma, é mais o conteúdo expresso da palavra. DV, que tivera atuação militante no concretismo e alcançara um bom apuro técnico em “Babel”, com os versos de “Máscaras de Papel” ilumina caminhos por onde certamente passarão os poetas nascidos a partir da década de 40.

E em Clotilde Tavares que percebemos o significado de ter nascido em 1947: o poema “Quarenta Anos”; para Allen Ginsberg, é o retrato objetivo de uma geração universalizada em contextos anti-ideológicos. Em “Bilhetes de Suicida” (Ed. Universitária, 45 páginas,1987), Clotilde Tavares deixa lado a artificialidade dos repentistas populares, os temas musicais que utiliza para o ensino e a pesquisa da Medicina, vindo assumir com lirismo o papel de musa do verso livre. Além da palavra, que une e reúne, um laço ata o livro “Máscaras de Papel” ao “Bilhetes de Suicida” – as mulheres, a quem são dedicados os dois livros. O número de páginas: a conclusão é tão marcante que um leigo em potencial pode até pensar que se trata de uma exigência do mercado editorial, antes de ser um prognóstico técnico/estético. A cor, enquanto tradução do instante poético, é um elemento indissociável da poesia inscrita em “Bilhetes de Suicida”. Em “Máscaras de Papel”, a cor é múltipla, a aquarela do poeta é uma vertente que se destina a propor as infindas possibilidades da cor, do sentimento da cor, A luminosidade é transparente, uma transparência, lírica, telúrica opalescente. “Em “Bilhetes de Suicida”, a cor reflete a unidade da temática poética. Noturno épico de uma geração. Em DV, a cor existe porque existe a matéria plástica do poema. Em CT, a poesia da cor ao existencialismo da cultura elevada a uma ponte de objetificação da realidade. A claridade das palavras concretas: “fatias de solidão para jantar, vinho, e taças, o gelo, o telefone,  táxis, bares, garrafas, álcool e dentes, portas, jornais, relógios, a mão e a caneta, o sapato bicolor, unhas e mesas, o traço do lápis, zoom, wake up, escamas, cabeça, tronco e membros, ampulhetas, espelhos, retratos, um cigarro aceso, o olho vendado, war games, túnicas vermelhas, good morning, batom, blush cremes de barbear, lâminas, desodorante for man, o cavalo branco, os insetos, as flores carnívora, sangue, hemorragia, estrelas, fósforos, luz.

Percepções,        Imagens    E Ações” (Edição do Autor, Carlos Lucas,1987), contém vinte poemas equalizados a um projeto gráfico original, e desde a capa a coloração é bem visível. O primeiro verso, o que inicia a série numerada, diz, textualmente:  “As cores se propagam”. Vamos encontrar o “mundo branco” e também a luz/que explode/ na implosão/do seu interior”. A percepção do humano é imagética em Carlos Lucas, da mesma forma que as imagens são perceptivas.  A cor, geradora de ações poéticas está presente nesse livro erro. “passagens lunares, na galáxia na solitária rua noturna, um sonho flutuando que lampeja na veia do sol explosão de energia terrestre, figuras do dia, figuras da noite, natureza da cor”. Em Carlos Lucas, a predisposição é para os “Sublimes Seres Humanos”, seu livro anterior, ao contrário de DV e de CT. Um dramatiza o amor, a mulher, para sublimá-los; outro, por ser mulher identifica-se a tal ponto com essa circunstância genética que é liderada o suficiente para abordar, em versos, uma temática contemporânea. Os três, dois poetas e uma poetisa são três mundos distintos, distantes, aparentemente contraditórios. Carlos (Astral) distingue-se por um detalhe cronológico, representante que é da geração de 60. Seus versos, embora tradicionalmente empilhados, chegam a superar a forma clássica dos simbolistas, parnasianos e modernistas. Algo, porém, substantiva a proximidade dos três poetas – e esse, porém é a cor, são as luzes do verso, da palavra poética. Da leitura dos livros permanece um saudável discernimento: a poesia, feita de sons e imagens, também é colorida.

 

Fonte da foto: Gazeta de Natal