Deixa o homem ter marido, deixa a mina ter mulher. O que é que tem demais cada um ser o que é?” Este trecho da música “Se liga aí”, de autoria de Gabriel, o Pensador nos faz refletir acerca da tensão atual, decorrente do movimento LGBTQIA+ e da reação agressiva de setores reacionários/moralistas da nossa sociedade. Diante de todo um contexto de crimes e práticas de violência simbólica para com homossexuais, em pleno século XXI, vem em mente a seguinte indagação: Afinal, partindo-se dos conceitos de aparelho psíquico e suas instâncias, o que pode ser, de fato, a homofobia?

Costumamos ouvir, constantemente, frases do tipo: “antigamente não existia isto”, “esta categoria promíscua quer inverter os valores morais”. Apesar do senso comum conservador insistir nestas afirmações, um breve estudo na história já nos faz lembrar que a homoafetividade sempre esteve presente na história da humanidade. A Grécia Clássica é um exemplo disso. Afinal, quem nunca leu sobre os erastés e eromenos na Atenas Clássica ou sobre os “bastidores” nos acampamentos de guerra dos espartanos? Então, o desejo sexual pelo mesmo sexo vai além da rasa tese de que só hoje vemos isto ou que os valores estão se invertendo. Em nome da preservação de tais “valores”, estamos presenciando uma intensa propagação de ódio, agressividade e, em não raros casos, homicídios (não seria isso a verdadeira inversão de valores?).

Partindo desta defesa insana de valores morais, calcados no preconceito e na discriminação, surge a figura do homofóbico, o “paladino dos valores morais, tradicionais e religiosos”. Porém, o que é, de fato homofobia? O que leva alguém a ser homofóbico? Supõe-se que o preconceito, seja ele qual for, está alojado no inconsciente, fugindo, ao seu portador, a capacidade de racionalizar e refletir sobre ele. É como se fosse um anseio da ID, para que, através daquele ato de ódio para com o outro, um desejo possa ter uma brecha e ser satisfeito. Seria, então, o homofóbico um homossexual se escondendo atrás de um ethos de macho, heterossexual, viril e “cidadão de bem”? Vamos à análise destes pontos.

Em primeiro lugar, quando alguém demonstra exagero na imagem que cria de si mesmo, está escondendo exatamente o oposto do que quer demonstrar ser. Não é à toa que muitas pessoas (sem generalizar) que cometem adultério em seus matrimônios, estão lotando as redes sociais com fotos do cônjuge e filhos, com a legenda “Eu amo minha família”. A este mecanismo de defesa do ego damos o nome de Formação Reativa. No caso da homofobia, há um forte indício deste mecanismo: o indivíduo se vê diante de um desejo sexual por pessoas do mesmo sexo. Porém, os padrões morais fazem com que tal desejo seja reprimido, gerando um conflito de identidade (deseja e quer, mas os tais valores não permitem). Daí, começa a ocorrer a formação reativa: Para tentar esconder este inconsciente “desejo proibido”, é criada a imagem do cidadão de bem, religioso, hétero, viril, “machão”, marombeiro, metido a pegador de mulheres e etc.

Em segundo lugar, este ethos (no sentido aristotélico de criar uma imagem de si), apesar de velar a aparência no mundo externo, não extingue os anseios libidinosos da ID. Se pararmos para analisar o típico homofóbico, veremos que, das profundezas do inconsciente, seu desejo aparece através de atos falhos, tanto na fala, quanto em comportamentos e, em alguns casos, nos lapsos de memória.

Talvez você já ouviu, em uma roda de garotos ou homens adultos, ao conversarem entre eles, frases do tipo: “pegue aqui na minha”, “meu p… no seu…”, “fique de quatro, para você ver”. Pois bem, estas frases, embora sejam tidas como uma tentativa de demonstrar poder através o falo, são na verdade atos falhos. Partindo do pressuposto de que, homossexual é aquele que sente atração e desejos pelo mesmo sexo, independente se será o “ativo” ou “passivo” na relação, pedir ao colega para pegar no seu falo, ou dizer que o irá penetrar demonstra, na verdade, os desejos inconscientes vindo à tona, através das falas, denunciando as preferências eróticas inconscientes do indivíduo.

Outro bom exemplo de ato falho pode ser analisado nos gestos do típico homofóbico. Aquele indivíduo metido a marombeiro, que vai à academia e adora se ver no espelho, exibindo seus músculos e os apreciando estaria, de fato, admirando seus resultados, ou seu inconsciente estaria, através de um ato falho, desejando aquele corpo masculino (o inconsciente pode não identificar a imagem do espelho como sendo a si próprio)?

Um terceiro ponto, nestes casos de atos falhos, são os lapsos na hora de falar com alguém do sexo oposto. Muitos deles, não conseguem manter conversas com mulheres (as palavras fogem, o corpo sua frio, não sabem sobre o que conversar). Seria apenas dificuldade ao conversar ou uma inconsciente falta de interesse no sexo oposto? Não raro, muitos dos homofóbicos são também machistas e agressivos com mulheres. Seria esta agressividade uma repulsa ao sexo feminino por, no fundo, ter desejos homoafetivos?

Por fim, talvez seja perigoso generalizar todos os que se sentem “ameaçados” por gays, lésbicas ou transexuais, como “homossexuais embutidos”. Porém, através das análises acerca dos mecanismos de defesas do ego e das “denúncias” dos atos falhos, podemos desconfiar que, por trás da homofobia há o recalcamento de um homoerotismo. Ou, como alguns costumam dizer: “O homofóbico solta o verbo porque está impossibilitado de soltar a franga”.

 

 

O presente artigo foi escrito por Dhierclay Alcântara: professor de História e Psicanalista, com foco em psicanálise e relações socioemocionais na escola. Atua na rede pública de ensino pela Paraíba e pela prefeitura de Parnamirim-RN, onde reside atualmente. Além disso, também atua como psicanalista e hipnoterapeuta na Grande Natal. Email: [email protected]