A senhora pia só sabe resmungar, reclama que vive cheia de louça suja, com panelas encardidas, esperando para serem ariadas, copos com restos de sucos e bordas marcadas com batom. No escorredor de inox, a colher de pau partilha divisória com o coador de pano do café, um pouco mais para o lado está a cuscuzeira e a tacha de ferro fundido, usada para fazer tapiocas.

Entabulei um diálogo com a pia, precisaria fazê-la entender a importância de servir uma refeição de qualidade. Separei cada guarnição. Botei os pratos empilhados, recolhi os restos de comida, deixei os copos enfileirados, como numa trincheira, prontos para o ataque de buchas e sabão, juntei os talheres e as panelas, estas, ficaram um pouco mais afastadas. Pedi à senhora pia um pouco mais de compreensão, pois ela teria de ter consciência do seu papel em nossa casa.

Ora bolas, quem já viu uma coisa dessas?

Não era a primeira vez que eu a via amuada, de boca cheia e “esborrotando” sujeiras. Coisa feia! Minha cara deixe de boca suja, deixe de ser mal agradecida. Quando vais conseguir entender o propósito de encher-te até a tampa? Fazendo-a equilibrar-se em amontoados de louças?

Minha querida, amada e necessária pia, peço-lhe, encarecidamente, que abra sua mente para a representação daquele momento, quando preparava o alimento para a minha família. Prometo recompensá-la. Cada esponjada será em agradecimento ao alimento pensado, feito e partilhado, nutrindo corpos e aquecendo almas com o amor que a cozinha nos permite criar, num laboratório de criação, entre rituais, de pratos, sabores, cores, cheiros, prazeres e devaneios.

Ah, louca louça suja, sua linda! Deixa de piar nessa pia. Afinal, tudo tem uma razão de ser.