São duas da manhã. A vizinha bebe Old Parr e descola um beck na varanda. Ela vive uma vida desregrada. Eu vivo de maneira regulamentar. A insônia e a literatura, porém, nos coloca no mesmo barco. Ela lê em voz alta a seguinte passagem da obra “A lógica do Cisne Negro”, de Nassim Nicholas Taleb: “Quanto mais você souber, maiores serão as pilhas de livros não lidos. Vamos chamar essa coleção de livros não lidos de antibiblioteca”.

Começamos a conversar.

– O dono da Amazon certamente teria ficado feliz ao escutá-la. A passagem soa quase como uma peça publicitária: “compre livros cada vez mais, mesmo que não os leia. É sinal de grande sabedoria”.

– Não foi isso que o autor quis dizer. Nassim Taleb não cuspiu uma ode à lógica neoliberal. O que ele escreveu não tem nada a ver com a ideia da aquisição de livros pelo simples prazer de comprar. Na verdade, ao falar dos livros não lidos Taleb está tratando do conhecimento ainda não alcançado, que no seu ponto de vista é mais importante do que o que já se conhece, do que os livros lidos.

– Como assim?

– Os livros não lidos permitem ao leitor enxergar os limites do saber humano. O desejo do impossível. A grande utopia que acompanha as pessoas que imaginam que algum dia irão apreender todas as ciências do mundo.

– Diante da biblioteca dos livros não lidos, então, até o maior dos boçais chegará à conclusão de que não sabe de muita coisa?

– Isso. E de que é preciso estar sempre correndo atrás do conhecimento, ainda que no final a derrota seja certa como na luta entre a vida e a morte. Claro, para algumas pessoas os livros não lidos também representam uma ilusão. A ilusão de que ao comprá-los e tê-los organizados em ordem alfabética, com limpeza mensal e carimbinho ex-líbris, se absorverá cada palavra contida nas obras.

– O conhecimento entraria por osmose, como diria um professor de biologia.

– Mas tem que ser muito burro pra pensar assim. Afinal de contas, um amontoado de livros não lidos faz explodir na testa de qualquer ser pensante a certeza de que é impossível ganhar o duelo contra a infinitude do conhecimento.

– Mas os livros são finitos.

– Você sabia que a cada ano se publicam no mundo 2, 2 milhões de novos livros?

– A senhora é muito pessimista.

– Você acha?

Fecho a porta da varada. Procuro um comprimido de Clonazepam na bolsa e fico pensando quantos anos eu levaria para ler os livros da minha biblioteca, particularmente os que ainda não li.

O remédio não demora a fazer efeito, graças a Deus.

 

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