“Há 519 anos nós, povos indígenas do Brasil, temos nos especializado em resistir”. Essa foi a fala da liderança indígena e coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), Sônia Guajajara, no início da ta’angamyî (webserie) intitulada Maracá: Emergência Indígena, fragmentada em oito episódios – para saber mais acerca da APIB e da ta’angamyî, sugiro que consultem o sítio https://apiboficial.org/. A produção em questão contou com o apoio de vários indígenas, não indígenas, artistas, cientistas, e ativistas nacionais e internacionais, que se mobilizam por nossas urgentes lutas de [re]existências.

A obra composta por imagens de arquivos de audiências – cenas de manifestações, rituais, danças, cotidianos e depoimentos com pedidos emergentes para salvar nossos povos –, traz à tona uma narrativa combativa e denunciante sobre a omissão do Governo Federal em relação aos povos indígenas no cenário pandêmico, que segue fazendo cada vez mais vítimas. Estamos acompanhando, depois de mais de um ano, a propagação do coronavírus que tem gerado estatísticas absurdas, além das práticas genocidas coloniais durante séculos,

Segundo informações da ta’angamyî, até 3 de agosto de 2020, o vírus já havia chegado em mais de 23 Estados, compreendendo aproximadamente 146 povos originários, contabilizando mais de 20 mil casos confirmados e mais de 600 óbitos. Atualmente, esse número só vem aumentando.

Ao som de toadas e leituras de textos de escritores e filósofes indígenas, diversas etnias se apresentam e denunciam os impactos que cada povo vem sofrendo. As (bio)diversidades vêm sendo reduzidas por essa era antropocena, que é apresentada em vários momentos no decorrer dos episódios. As constantes ações do ser humano, desde o início da sociedade industrial, vêm causando mutações ambientais e climáticas a nível global e, por aqui, não poderia ser diferente. Estamos testemunhando essas ações e suas consequências, as mortes dos parentes e a tristeza que toma os semblantes de todes.

O resgate da nossa ancestralidade e espiritualidade é uma cura nesses tempos mazelados. E isso estimula um olhar para nós mesmos através de (re)conexões com a natureza e novas perspectivas sustentáveis coletivas vem a surgir. Não somente nos relatos apresentados em Maracá: Emergência Indígena, mas em diversas produções que vêm trazendo provocações e reflexões políticas e sociais para sociedade.

Produções audiovisuais e cinematográficas como esta, vêm crescendo consideravelmente nos últimos anos em seus mais variados formatos sobre nossos povos. É importante destacar que são produções realizadas a partir da nossa ótica. O que rompe, com excelência, as versões das narrativas reproduzidas pelo colonizador. Narrativas essas que ao longo dos anos só fomentou negativamente nossa existência, contribuindo com nosso epistemicídio. Não queremos nenhuma gota de sangue a mais. Seguiremos reexistindo e o som dos maracás continuarão a ecoar.

 

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