O sentimento que me toma enquanto escrevo este texto é de revolta, indignação e impotência. Sabemos que nunca foi fácil ser mulher numa sociedade machista, mas nos últimos dias temos sidos bombardeadas com fatos e relatos da prática de violência contra a mulher, retratados (ou não), nos noticiários nacionais/regionais/locais. É estarrecedor perceber que, além de violentadas, humilhadas e feridas as vítimas precisam expor suas feridas para que seu agressor seja punido. Infelizmente a maioria das mulheres, por medo, vergonha ou enes motivos que não nos cabe questionar, não estão dispostas a passarem por mais esse ato de “violação do direito de serem o que são” e não tornam pública a agressão sofrida, o que facilita a vida do agressor, pois sem visibilidade e cobrança da sociedade dificilmente eles são presos e o caso vira apenas mais uma estatística de violência doméstica. Quando esses casos ficam invisíveis/impunes muitas “marias” são prejudicadas e outras vidas são afetadas e/ou perdidas. A voz de uma encoraja a outra, por isso é importante que quebremos as amarras e gritemos nossas dores. O silêncio é a segurança do agressor.

 

Quando o agressor não vai para cadeia a mulher permanece presa aos medos, pesadelos e traumas causados pela violência sofrida. Apesar dos avanços trazidos pela Lei Maria da Penha a impunidade ainda reina neste mundo tenebroso que envolve as mulheres vítimas de seus parceiros e suas famílias. Além de todas as sequelas deixadas pela violência a vítima ainda enfrenta um “tribunal” que, de forma sutil ou muito direta, se acha no direito de culpá-la pela violência sofrida. Esse julgamento, presente nos olhares inquiridores, nas perguntas “inocentes” que só querem ajudar, nas tentativas de minimizar a agressão qualificando-a como “coisas de casal” tornam, ainda mais difícil, a vida da mulher, já fragilizada por toda situação de ameaças e sofrimentos de toda ordem.

O mais revoltante e criminoso é ouvir, de quem deveria proteger/acolher a vítima, falas desrespeitosas carregadas de um machismo que tenta nos desqualificar enquanto pessoas. É inaceitável que em pleno sec. XXI pessoas públicas, eleitas para garantir os nossos direitos, refira-se a uma agressão como “uns bons tapas”. Senador Styvenson Valentim, o senhor foi muito infeliz “ao usar o verbo errado”. Sua fala foi uma espécie de validação da violência, pois nada, absolutamente nada, justifica a violência. Sua conduta, como cidadão e homem público, refletem a violência enraizada em nossas origens históricas e culturais já estruturada e, infelizmente, legitimada por muitos, em nossa sociedade.

 

A luta das mulheres assemelha-se a um ditado iorubá que diz: “Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que só jogou hoje”. Sim, porque a nossa história é marcada pela violência. Toda mulher carrega em si a enorme responsabilidade de corrigir os abusos sofridos por nossas ancestrais. Todas as injustiças sofridas no passado são urgentes, ainda hoje. A agressão sofrida por uma afeta todas e traz a tona os fantasmas que nos perseguem desde o início da história da humanidade. É urgente e necessário mudar essa história, concertar o que vem sendo quebrado desde sempre. Não podemos esperar o amanhã de braços cruzados, esperando que um “bem feitor” nos alforrie. Essa luta é de todas nós. Somos cidadãs e temos direito a uma vida sem medos, amarras e ameaças.

 

Todos nós, homens e mulheres, precisamos levantar nossa voz e reforçar nossa luta em defesa das mulheres brasileiras e contra qualquer tipo de violência contra vida. É odioso ver/sentir/ouvir qualquer palavra ou ato que agride nossa condição de mulher e desvaloriza a nossa luta por uma vida sem violência e com direito a liberdade de sermos respeitadas, dentro e fora de casa, independentemente da cor de nosso batom, da roupa que vestimos ou dos lugares que frequentamos. Não podemos recuar nessa luta de construirmos uma sociedade livre de violência. Precisamos ficar atentos e não naturalizar o inaceitável, como fruto de trauma. Creio que são as miúdas arrelias do quotidiano, esse silencioso pilão que vai esmoendo a esperança, grão a grão” (Mia Couto) que roubam nossa capacidade de sentir a dor alheia e acreditar que é possível transformar esse cenário de terror em um horizonte onde todas as vidas serão respeitadas e toda forma de violência será condenada. Talvez Oscar Wilde estivesse certo quando afirmou que “A sociedade perdoa um criminoso, mas não perdoa um sonhador”. Mesmo assim continuarei sonhando com este mundo onde a vida das mulheres sejam consideradas importantes.

 

Ângela Rodrigues Gurgel

Licenciada em Filosofia e Ciências Sociais,

autora de Ensaio Poético e Confissões

Crônicas – Coleção Mossoroense.

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