Vovó presta para poesia
como nenhuma outra pessoa
que colecione reumatismos e artroses
Vovó anda pela rua com a fronte
declinada ao chão
Encontra um parafuso, abaixa-se a muito custo,
pega-o e dá uma gargalhada
: às vezes a gente carece e não tem um sequer!
Vovó enche os bolsos de parafusos, pregos, tampinhas
que encontra pelas dobras dos paralelepípedos.
Leva-os para casa porque lhes vê prezadamente,
apesar de que nunca sequer vá usá-los
Vovó tem marcas nas unhas do vai-e-vem do amor.
Isso porque nunca se observou livre o suficiente
para desmerecer o casório prematuro.
4 filhos nas costas e um amor
que só lhe voltou depois de anos
Vovó come melancia se lambuzando.
Gargalha, envergonhada, quando a água doce
escorre pela boca e forma poça no queixo
Avançar além da idade é conservar infâncias
Vovó é das graças.
Observação que Dorinha, a mãe, já havia anotado
desde quando a filha esperneava em seu ventre
Se a gente entortar bem a vista
pode ver dentro do olho de vovó a força das cigarras.
Pode ter chorado uma vida inteira.
Mas enquanto tiver voz, canta.