No jornal Potiguar Notícias – Segunda Edição, o jornalista Otávio Albuquerque entrevistou a escritora Kalina Paiva, que falou sobre a sua obra “São Bernardo dos Ventos Uivantes: Um Percurso Marxista no Calor da Luta de Classes”. O livro, que, a princípio, foi sua tese de doutorado, é um ensaio acerca de um amálgama entre dois clássicos da literatura universal: O Morro dos Ventos Uivantes, da escritora inglesa Emily Bronte, e São Bernardo, do brasileiro Graciliano Ramos. O lançamento do trabalho foi no mês de maio, no canal Mulherio Nísia Floresta.

Segundo a escritora, o livro parte da premissa de uma comparação entre as duas obras clássicas, mas a partir da inserção da teoria marxista na composição do ensaio acadêmico. Para ela, a escolha do embasamento teórico se deve ao fato do marxismo proporcionar uma leitura dos livros por meio de uma perspectiva crítica sobre as condições históricas nas quais as narrativas estão imersas, seja na Inglaterra da revolução industrial no século 19, ou no Brasil da era Vargas na década de 30 do século 20.

Em relação à comparação entre os dois protagonistas das histórias, o cigano heathcliff e o trabalhador rural Paulo Honório, a autora discorre: “a analogia se dá, primeiramente, pelo fato de ambos serem oriundos de estratos menos favorecidos, e que depois, devido a muito esforço, conseguem ascender socialmente a ponto de se tornarem senhores de terras e serem aceitos por suas respectivas sociedades. Embora pertençam a épocas diferentes, eles estão ligados à concepção de terra ou propriedade como extensões de suas próprias personalidades, no sentido de uma busca constante por uma identidade, fato que se associa à tese marxista de que as classes subalternas ou operárias são vistas como inumanas”.

No que se refere à consonância entre os períodos em que se situam cada obra, a escritora salienta: “as duas obras são escritas em momentos de modernização social, mediante a efervescência tecnológica e científica, fomentada a partir do processo de industrialização, tanto na Inglaterra, a qual empreendia uma segunda revolução no sistema produtivo, como no Brasil, que, com o Getúlio Vargas, iniciava-se uma transição de um país arcaico e essencialmente agrícola para uma expansão da indústria em vários setores”.

Sobre um capítulo específico do livro, denominado “A Submissão e subversão dos papéis femininos, Kalina Paiva ressalta: “as mulheres desempenham funções primordiais nas duas narrativas, tanto no que diz respeito à passividade ao autoritarismo patriarcal e machista, como no caso dos perfis femininos de O Morros dos Ventos Uivantes, como na perspectiva de insurreição da mulher, a partir das ações de Madalena, personagem de São Bernardo. Nesse sentido, partindo da tese marxista, Graciliano Ramos constrói uma protagonista que não aceita a situação de submissão nem a postura ditatorial do seu marido Paulo Honório, não permitindo, muitas vezes, mediante o princípio de luta de classes, que ele maltratasse os funcionários da fazenda”.

Por fim, se há uma liame entre a práxis freiriana e marxista com as obras, a escritora explica: ” Freire e Marx preconizavam uma educação de base libertadora, na medida em que propunham uma tomada de consciência do indivíduo sobre a sua própria realidade e condição social. Portanto, são pedagogias que têm por finalidade a emancipação do sujeito, livrando-o da dominação, mas também fazendo-o entender que, mesmo que ascenda socialmente, não poderá subjugar aqueles que estão em condições sociais inferiores. Desta forma, a educação deve, invariavelmente, conceder autonomia ao indivíduo, aguçando o seu senso crítico, para que ele não possa reproduzir elementos nefastos de dominação, seja no campo do gênero, étnico, intelectual ou ideológico”, finaliza.

 

Para assistir à entrevista, acesse o link: https://youtu.be/NhKbquqhnLA