O comerciante e jornalista Joaquim Lucas da Costa (1886/1925), poderia ter sido mais  um dos profissionais desta atividade a ser despachado do cenário da vida intelectual  de  Natal, principalmente nos meados da década de 20 do século XX, ingloriamente, sem deixar marcado o rastro da sua presença. Mas, graças ao seu talento artístico, terminou ganhando uma fatia de glória póstuma porque as suas atividades extra-comerciais, o jornalismo e o teatro, garantiram sua redenção após a morte. E sua história até ganharia outra dimensão lítero-humanística, caso não tivesse sido atropelado, prematuramente, pela implacabilidade que abrevia a nossa trajetória existencial.

Lucas, como assinava nas transações comerciais, anunciou no jornal “A República”, no jornal “A Imprensa”, no jornal “A Capital”, no jornal A “Imprensa”e outros sobre sua empresa  “Armazém de Cereais, Consignações, Comissões e Conta Própria”, em 1908 e de 1917 à 1924, ininterruptamente; J. Lucas vende redes do Ceará, por preços vantajosos. Representante da fábrica Iracema de Mello e Nogueira. Mantém depósito de madeiras do Pará –  de todas as qualidades. Vende por preços reduzidos. Rua Aureliano Medeiros, n.º 11; Outro anúncio: J. Lucas vende  baleeira nova, por preço baratíssimo, para o serviço de porto.  Mais outro: J. Lucas tem para vender, pelos preços antigos, sacaria de estopa para açúcar, entre 60 e 75 quilos. Em uma nota da empresa Tração, Força e Luz Elétrica de Natal, relativa à taxa de luz (como aviso aos contribuintes do bairro da Ribeira), em 1917 no jornal A República”,  referente a um prédio na Rua Desembargador Joaquim Ferreira Chaves. J. Lucas também possui terrenos na Rua do Comércio (hoje, Rua Chile), no bairro da Ribeira. Também assinando como Joaquim Lucas, o combativo articulista do jornal  A Imprensa”, (1917) e do Jornal da Noite” (1925), no seu último ano de vida, em 1925 ainda publicou poemas, “Revés da Sorte”, publicado no jornal A Capital”, edição de 17 de janeiro de 1909; ou Lucas Costa, dos poemas publicados em A República”, “A Capital” e do seu único livro, Disfarçados… editado em 1924, quando um articulista escreveu, na edição de “A República”,  do dia 24 de outubro de 1924, sobre o fato de o autor, além de ter se dedicado a atividade comercial, “mesmo assim se  revelou um espírito esforçado e inteligente ao abordar assuntos literários”. Colaborou ainda, na condição de redator,  em Teatro (O), Órgão do Ginásio Dramático, publicação indeterminada. O número 2 do ano III é de 3 de maio de 1918. Número avulso $ 100. Impresso em quatro colunas. Faziam parte deste grupo: Félix Fidelis (Jorge Fernandes), Riachão, Lívia Maggiolly, Deolindo Lima, J. Vadio (João Estevão), Cora Magioly Costa, Lucas da Costa. Diretor artístico do Ginásio Dramático: Álvaro Costa. A sua publicação teve início em 1916. Colaborou ainda com um original e bem elaborado mini-conto “O Ouro…”, em 1916, na revista Rapa-Côco, (publicação Sanjoanense).

Joaquim Lucas da Costa participou como contra-regra do grupo teatral “Ginásio Dramático”, grupo que durou 7 anos e envaideceu os espíritos da sociedade natalense. Marcou época na vida da cidade com muitas revistas, teatro vaudeville, comédias, burletas e dramas, escritas pelo pessoal daquele grupo e montadas no Teatro Carlos Gomes, além de excursionar pelas cidades mais próximas da capital como: Macaíba, Ceará-Mirim e Canguaretama.

Dentro da sua produção cultural, destaca-se o texto O Homem”, publicado no jornal A Imprensa”, em setembro de 1917, aborda, filosoficamente, nossa espécie, com observações dessa profundidade, nas quais se observa, na escrita, uma espécie de transe mediúnico ( registre-se: Lucas era um dos espiritualistas da cidade): “Homem, não te envaideças tanto! Há em tua alma, cores que deslumbram, mas estas não são mais que as variações dos páramos, o brilho fictício dos fulgores ou as variedades caleidoscópicas. Tu és apenas um instrumento transmissor das maravilhas de todos os tempos, sabes? O panteísmo é a verdadeira ciência; somente Deus é grande…”

Seu envolvimento com a maçonaria é um capítulo importante na sua vida, à qual dedicou mais de uma década à loja maçônica Filhos da Fé Or de Natal”, situado na Rua Santo Antônio no centro da cidade de Natal. Destacando-se como um dos mais brilhantes oradores, além de exercer os cargos de secretário, e 1.º vigilante, chegando ao grau 32. Foi também membro e orador da “Irmandade dos  Passos.”

Marcando sua presença na vida política de Natal- Rio Grande do Norte, Joaquim Lucas da Costa se registrou entre os 100 nomes de uma lista de candidatos a deputados e suplentes, para a renovação da  2ª turma à esta zona. Pelo edital da Junta Comercial de Natal foram convidados, naquela ocasião, os comerciantes-eleitores, em 26 de dezembro de 1923.

O respeitado poeta e crítico literário Anchieta Fernandes traduziu e resumiu a importância de Joaquim Lucas Costa no ofício literário-jornalístico: “Um genial praticante da ironia e do humorismo desvelador das máscaras sociais”. E pioneiro na documentação da vida cultural de Natal”. Mais: “Temos em Lucas da Costa, no livro Disfarçados…a prova de quanto o bom escritor pode ultrapassar a sua época, na verdade, criativa, que sabe usar para captar situações e comportamentos humanos”.

Retratando o cotidiano, as vicissitudes, os desmandos políticos-oligárquicos do seu tempo, Lucas da Costa pormenorizou e reconstituiu um amplo e rico painel da vida e da sociedade natalense. Essa crítica social dos costumes de Natal  foi enriquecida, especialmente quando, num dos capítulos de Disfarçados…, o escritor abordou a célebre e quase sangrenta campanha política da sucessão governamental, em 1913, que desassossegou o Estado, com os inflamados discursos “salvacionistas” do capitão José da Penha, bradando contra o continuísmo da oligarquia Maranhão, representada pela candidatura vitoriosa do Desembargador Joaquim Ferreira Chaves, que voltava ao governo do Rio Grande do Norte, agora com um gigante mandato de sete anos.

Lucas da Costa despedia-se da vida, quando já começava a gozar da popularidade alcançada com seu livro Disfarçados…, bem vendido nas duas principais vitrines de vendas da cidade, a Livraria Cosmopolita do Sr. Fortunato Aranha, responsável pela edição do livro e da Agência Pernambucana, ambos situados na velha Ribeira. Bairro, aliás, que Lucas da Costa amava e praticamente viveu boa parte das suas horas, no comércio, no jornalismo, no teatro e na condição de morador. No prefácio do livro Natal do Meu Tempo, Crônica da Cidade do Natal, de João Amorim Guimarães, na 2ª edição (1999), com organização,    introdução e notas do professor e doutor do departamento de letras da (UFRN), Humberto Hermenegildo de Araújo. Ele faz este comentário: “É necessário observar, no entanto, que Natal do Meu Tempo não é uma manifestação isolada de documentação da vida cultural da cidade do Natal. No gênero, destacam-se os títulos Histórias que o Tempo Leva… (1924, Luís da Câmara Cascudo) e Disfarçados… (1924, Joaquim Lucas da Costa), ambos publicados na década de 20. Após estes dois trabalhos pioneiros, muitas crônicas sobre o processo de modernização da cidade foram publicadas nos jornais natalenses, assunto em torno do qual relacionam todos os outros”.

E foi no bairro da Ribeira, na Rua Antônio Glicério, por trás da Igreja do Bom Jesus das Dores, que o prestimoso cavalheiro, Sr. Joaquim Lucas da Costa, se despedia da vida, às 6 horas da manhã de um sábado, 25 de julho de 1925. A sua vida e sua importante trajetória existencial vão sendo analisadas, avaliadas e lhe garantindo um retrato fiel do seu comprovado e reconhecido valor.

O escritor, poeta, contista jornalista e teatrólogo Joaquim Lucas da Costa, publicou o mini-conto na revista de edições são janesca chamada “Rapa Côco”, com o títuloO OURO…” que transcrevemos abaixo:,👇

 

Quem naquela hora penetrasse na casa de Jerônimo, se comoveria  diante da cena que então se passava.

Em um leito de morte, jazia o pobre velho, sentindo no peito a vida quase extinta.

Após ingerir algumas gotas de um líquido que uma criança lhe trouxera, caiu num forte delírio e clamava a Deus para findar a sua agonia.

Três anos depois, do falecimento do tio de Matilde, havia uma festa na mesma casa.

Fora, como nos anos anteriores, crepitava a enorme fogueira, tradicional, com que seu pai solenizava os anos do Batista e o aniversário dessa menina que coincidia com aquela data.

A rapariga contava, mais ou menos, 12 anos; era bela, querida por muitos e dispunha de um patrimônio que o tio lhe deixara. O indispensável,    portanto, para nesse meio lustro de vida, ser feliz e antever um futuro cheio de promessas…

No entanto, ao contrário, permanecia sempre absorvida em pesadas meditações…

Pensava… pensava a sós e emergindo desse estado de alma, notava-se no rosto contrações estranhas.

Dir-se-ia que um pensamento de amor era a causa da sua profunda apreensão.

Mas, o certo é que ninguém penetrava no seu sentimento.

Às vezes, naquela idéia fixa, debalde seu pai lhe inquiria o motivo de pesar que lhe abalava o espírito.

Nesse mesmo dia da festa, dava meia-noite no sino da torre. Um homem, de avançada idade, para lá se encaminhava. Era o pai de Matilde, que ia invocar o motivo da tristeza da filha.

Enquanto ele orava, ouviu num rio próximo à igreja, os gritos que se perdiam no espaço.

Quem ali chegasse, ouvira, uma voz sufocada se misturando ao murmúrio da correnteza e no leito das águas, se agitando, um corpo de mulher.

Um quadro horrível, ali se desenhava.

Os gritos, percebidos, não preocupam de forma nenhuma o pobre velho. Mas, perdera de vez a noção das vida, após suas orações, ao receber nas mãos geladas uma lousa que puseram aos pés do altar. Ela continha umas quadras que, apesar da vaga significação, deixavam perceber a narrativa de uma tragédia.

As quadras eram estas :

 

O ouro às vezes tudo alcança,

Traz- nos o bem e é fatal…

Por isso, até na criança,

Incute a ideia do mal.

 

Nos seu predomínio, tanto

Ele execra  e  redime

Tingiu da inocência o manto,

Com as cores rubras do crime.

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       Ela, que tudo arrepende

E vai lavar seu pecado…

Agora, sua alma esplende,

Voando num céu constelado.

 

E ao ler esse tremendo epílogo, que mais parecia um pesadelo e não o destino explicando o desaparecimento do irmão, o desgraçado faleceu cheio de horror.

                                         

                                            Lucas da Costa

 

Além da publicação de poemas no jornal “A República”,  o jornal “A Capital”, na edição de 17 de janeiro de 1909, publicou o poema Revés da Sorte:

 

Esse que outrora no seu lar vivia,

Levando a vida na maior ventura,

Nunca temeu sequer a desventura;

Seu viver era sempre a burguesia.

 

Caridade não faz. Nem um só dia,

Aos que prostrados nos seus pés rogavam

Um pedaço do pão que mendigavam,

Em nome de Jesus ou de Maria.

 

Quase sempre, dista enfurecido;

“Prossiga que eu não atendo o pedido

Que me fazem em nome de Jesus”,

 

Mas hoje; infeliz sorte o perseguiu;

Agora pede a quem lhe pediu,

“E vive quase nu”, sem pão, sem luz.

 

Lucas da Costa