A amizade é, acima de tudo, certeza – é isso que a distingue do amor.
Marguerite Yourcenar
Estou cada vez mais convencida de que o valor da amizade não tem nada a ver com o tempo de convivência ou mesmo com a frequência dos encontros. E uma conversa rápida com meu amigo Higino Neto me fez reforçar ainda mais essa certeza. Há alguns meses, estava eu procurando um atendimento de urgência para um familiar e ele me socorreu com informações preciosas em pleno domingo. Jamais esquecerei esse gesto de carinho e atenção. Sua orientação foi fundamental para que procurássemos uma unidade de saúde próximo de nossa casa e fôssemos atendidos rapidamente.
Quando o procurei não tinha seu número de telefone e deixei uma mensagem em uma rede social. Imediatamente, ele me adicionou no WhatsApp e me deu as informações de que necessitava para o atendimento na unidade de saúde que também atende casos de urgência. Era tudo que eu precisava naquele domingo de angústia e incertezas. Aquele seu gesto de acolhimento me fez sentir um pouco mais aliviada e nutriu a esperança de que tudo ficaria bem.
Alguns meses depois, outra conversa pelo mesmo motivo. Dessa vez, pedi informações para um amigo que estava se queixando de dor de cabeça e eu disse que poderia ser pressão alta e o ideal seria buscar atendimento médico de urgência e depois marcar uma consulta com um cardiologista. Espero que ele faça isso e fique bem. Mais uma vez, em pleno domingo à noite, Neto foi superatencioso e me passou as informações necessárias para que meu amigo buscasse o atendimento no dia seguinte.
Depois de pegar as informações necessárias e agradecer por sua atenção, conversamos um pouco e acabei lembrando uma passagem importante da nossa adolescência. Algo que marcou minha vida para todo o sempre. O empréstimo de dois livros. Jamais poderia imaginar que o contato com aquelas obras teria tamanho impacto em minha existência. Nascia ali meu amor pela literatura.
Minha sobrinha Juliana Lucena, dois anos mais nova que eu, também foi uma pessoa fundamental na minha formação como leitora, pois sempre me emprestava os livros que eram adotados em sua escola e outras obras que seu pai indicava. Foi ela quem me apresentou Jorge Amado, por exemplo. Aliás, “Capitães da Areia”, foi um livro que marcou demais minha juventude. Alguns livros da Série Vagalume (“Éramos Seis”, “Tonico”, “Açúcar Amargo”, “Sozinha no Mundo”), “O meu pé de laranja lima”, de José de Mauro de Vasconcelos, entre outros, também marcaram essa época.
Conheço Neto desde os 13 anos. Temos a mesma idade e estudamos juntos na sétima série na Escola Municipal Professor Antônio Severiano. Nessa época, eu costumava frequentar bastante sua casa, onde conversávamos sobre os trabalhos da escola, mas também sobre os mistérios da literatura (Nossa professora de Português, Mirtes, sempre adotava alguns livros bem legais, entre eles “Yakima, o menino-onça”, de Assis Brasil, e “Um sinal de esperança”, de Giselda Laporta Nicolelis). E foi nessa época que ele me emprestou dois livros que marcariam para sempre a minha vida: “Pollyanna” e “Pollyanna Moça”, de Heleanor H. Porter. Lembro do meu encantamento pela menina órfã que aprendera com o pai a jogar o “jogo do contente” e sempre encontrava uma maneira de driblar as situações difíceis e enxergar o lado bom das coisas. Com seu jeito encantador, conquista os moradores da pequena cidade Beldingsville, nos Estados Unidos, onde passa a morar com a tia carrancuda, a senhora Polly Harrington. Assim como Pollyanna, Neto trouxe consigo, desde cedo, uma importante lição: “Seja grato. Seja bondoso. Seja corajoso”. E sua bondade de partilhar comigo aqueles dois livros jamais será esquecida.
No segundo livro, “Pollyana Moça”, o leitor vai acompanhar a preocupação da jovem com os mais necessitados e sua perene dedicação aos amigos e à família. Ela é enviada para Boston a fim de ajudar na recuperação de uma senhora que estava muito desolada por ter perdido um sobrinho. A vida de todos ao redor será transformada com a chegada de Pollyanna. A protagonista também viverá a experiência do primeiro amor. Publicado em 1915, “Pollyana Moça”, tornou-se um clássico da literatura infantojuvenil, cativando diferentes gerações de leitores com sua mensagem de otimismo e superação. Uma observação importante: as informações apresentadas nesta crônica sobre os dois livros foram adaptadas do site da Amazon.
Voltemos ao meu amigo Neto. Após terminarmos o ensino fundamental, perdemos um pouco o contato porque fui estudar no CEFET (hoje IFRN), onde fiz o Curso Técnico de Turismo e Hotelaria; ele seguiu para outra escola. Apesar de morarmos no mesmo bairro, não nos vemos com muita frequência. Ainda mais nesses tempos de pandemia, em que meu trabalho é no formato home office e tenho saído pouquíssimo de casa. Antes da pandemia, houve uma época em que nos encontrávamos bastante no ônibus, principalmente de manhã, quando saíamos para trabalhar. O papo rolava solto. Não faltava assunto.
Os encontros no ônibus foram rareando, mas isso não quer dizer que a amizade esfriou ou deixou de existir. Outro dia, por exemplo, nos encontramos na saída de um shopping e pude constatar o que falei no início dessa crônica. As verdadeiras amizades permanecem vivas independentemente da frequência com que vemos nossos amigos. É sempre uma alegria reencontrá-lo Tenho muito orgulho do homem trabalhador e dedicado aos seus que é meu amigo Higino Neto. Formado em Administração de Empresas, com experiência em administração de condomínios, hoje exerce seu papel de funcionário público com muita dedicação e compromisso numa Unidade Básica de Saúde de Parnamirim. Mas a vida não é feita só de responsabilidades. Parafraseando a canção dos Novos Baianos, sua carne é de carnaval e seu coração é igual. Muito festivo, Neto está sempre se divertindo e/ou viajando com amigos. Adora tomar café com as amigas e não dispensa uma balada. Isso antes da pandemia, claro. Um bon vivant, diriam alguns. Uma pessoa feliz e de bem com vida, diria eu.
Nosso próximo encontro não será obra do acaso. Quero recebê-lo em minha casa para um café. Não vejo a hora de lhe mostrar meus livros e fazer a mesma coisa ele que fez com aquela menina de 13 anos que não tinha dinheiro para comprar livros, mas possuía uma imensa vontade de desbravar o mundo encantado da literatura infantojuvenil. Ela tornou-se escritora e revisora de textos. A vida e seus mistérios…
Se naquela época eu não ganhava livros, hoje é o presente que mais recebo. Há poucos dias, estive em Campina Grande com meu amigo Cláudio Everton para visitar Aliery Araújo e Adjael Maracajá e, além de revê-los e fazer novos amigos (Jéssica, Gabi, Rodrigo, Melissa e Ihago), ganhei um livro de Adjael: “Sapiens: uma breve história da humanidade”, de Yuval Noah Harari. Geógrafo e professor de Kung Fu, Adjael também ama a literatura e conhece bem meu gosto literário. Há alguns anos ele me presenteou com um livro de Drauzio Varella, “Carcereiros”. Meu amigo Medeiros completou a trilogia com “Prisioneiras”. No último final de semana, outra grata surpresa literária: meu amigo Osair Vasconcelos fez uma daquelas gentilezas que aquecem o coração de qualquer leitor: ele me presenteou com uma coletânea de contos de sua autoria: “As pequenas histórias”. Osair veio com a esposa entregar o livro em minha residência. Fiquei tão comovida com aquele seu gesto de delicadeza. E quando os livros chegam pelos Correios? Foi o que fez minha amiga Ivaíta Souza ao me enviar seus dois livros autografados: “Relembranças” e “A flor do trapiá”. Tive a honra de participar da live de lançamento do último livro, com Ana Cláudia Trigueiro e Cláudia Santa Rosa. Uma noite de muitas emoções. Ivaíta é uma grande memorialista e sua obra se inscreve no panteão dos livros clássicos da literatura brasileira. Sua obra junta-se à de Madalena Antunes, autora de “Oiteiro: memórias de uma sinhá moça” e de outras memorialistas como Rachel de Queiroz, Ana Cláudia Trigueiro. Isso sem falar nos livros que reviso, como foi o caso da obra “Escrevivência: a escrita de nós: reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo”, organizada por Constância Lima Duarte e Isabella Rosado Nunes e publicado pela Mina Comunicação e Arte em 2020. Dessa vez pude compartilhar com algumas amigas os exemplares recebidos. Foi uma festa.
Encerrando essa crônica de homenagem à amizade, mas também uma declaração de amor aos livros, dedico a você, meu amigo Higino Neto, esta frase de Heleanor H. Porter, presente em um dos livros que foi a ponte para nossa amizade: “A influência de um belo caráter é contagiosa, e pode revolucionar uma vida inteira”.