Conheço algumas pessoas que não gostam do domingo. Alguns dizem que é um dia triste, outros que é um dia entediante. Tenho uma amiga que repete sempre a mesma frase: “detesto dia de domingo, é um tédio”. Nunca compartilhei dessa opinião. Na verdade, todos os dias são iguais para mim. Geralmente acordo feliz com a possibilidade de um novo dia a ser descortinado. Sou daquelas pessoas que adoram acordar cedo e aproveitar ao máximo o dia. E mesmo que eu precise dormir tarde, às sete da manhã, normalmente já estou de pé. Antes de tudo, oração, alongamento e café.

As manhãs são sempre muito especiais porque simbolizam a esperança de um novo dia, o que significa novas oportunidades de continuar lutando pelos nossos objetivos, por exemplo. A noite para mim é sinônimo de descanso. Além do mais, uma nova manhã também significa que desfrutamos de uma boa noite de sono, renovamos nossas energias. Isso para os que não têm insônia e/ou para quem não trabalha à noite.

Voltando à polêmica sobre o domingo. Acho que tudo é uma questão de ponto de vista: não é o dia em si que é bom ou ruim, mas o que você faz com seu tempo disponível. Isso me fez lembrar um texto do filósofo Sêneca em que ele fala justamente sobre a passagem do tempo e a ideia de que os anos passam rápida e velozmente. O texto faz parte do livro “Sobre a brevidade da vida” (L&PM, 2010).

Para Sêneca, é preciso dar um sentido a nossa existência, quando não realizamos o que devemos realizar, sentimos que a vida se esvai. Diz ele: “Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas”. E arremata: “a existência se prolonga por um largo período para o que sabe dela usufruir”.

Apesar de não ter um dia preferido, acho que o domingo tem uma certa magia. É um dia que só remete a coisas boas: almoço de família, churrasco, praia, descanso… Tenho poucas lembranças da minha infância, mas algumas delas estão relacionadas a esse dia tão adorado/odiado por muitos. Quando era criança, sempre ia à feira com minha mãe aos domingos. Domingo também era dia de visitar tia Neuza, uma irmã de meu pai que dedicou a vida a cuidar da família. Uma mulher forte, trabalhadora e solidária que dedicou a maior parte de sua existência a fazer o bem. Estava sempre disposta a ajudar os amigos e familiares e isso significava cuidar de enfermos, lavar e passar roupas, fazer comida… Não teve filhos, mas ajudou a criar dois dos meus irmãos e sempre apoiou os dez filhos de sua irmã Quitéria, quando esta partiu. Eles a consideram uma segunda mãe. Eu adorava ir pra casa dela porque, além do passeio em si, sempre ganhava alguns materiais escolares. Era uma festa. O domingo à noite era ainda mais especial, era o momento de ir à casa da vizinha para assistir “Os Trapalhões”.

Domingo é dia de se espreguiçar na rede, como faz a personagem da crônica de Newton Navarro intitulada “Lição do domingo”. Depois de descrever toda a magia do momento e a beleza da “mulher que ressonava entre ardências e desejos adormecidos”, diz o autor: “Meu Deus, por que fizeste na criação as coisas tão deliciosas? Por que armastes redes, inventastes os domingos, e despertastes nas mulheres belezas que só despontam quando elas modorram?”. O texto faz parte do livro “Sete poemas quase inéditos & outras crônicas não selecionadas” (Edufrn, 2012), organizado por Gustavo Sobral e Paulo de Tarso Correia de Melo.

Domingo é dia de feira, é dia de sorvete, é dia de parque, é dia de circo. Domingo é dia de acordar mais tarde e comer na frente da tv. Domingo é dia de fazer leituras mais demoradas, é dia de escutar aquela música que a correria da semana não permite. Domingo é dia de assistir filme, é dia de pizza, é dia de churrasco. Domingo é dia de visitar a família. É dia de encontrar os amigos para um café, uma cerveja…

Toda essa discussão em torno do domingo me fez lembrar alguns escritores e músicos que o eternizaram em seus poemas, crônicas e canções. Um deles é o mestre Vinicius de Moraes. No “Soneto de um domingo”, ele diz: “Em casa há muita paz por um domingo assim. / A mulher dorme, os filhos brincam, a chuva cai…”. Michel Sullivan e Paulo Massadas são os autores de uma canção que foi sucesso na voz de Tim Maia e Gal Costa, “Dia de domingo”.

Thiago de Mello eternizou o domingo em um poema. Estou falando do emblemático e revolucionário “Estatutos do homem”, um hino à liberdade. O Ato Institucional n. 1 e o emprego da tortura como método de interrogatório inspiraram o poema. O poeta amazonense, que é também tradutor e ensaísta, foi preso durante a Ditatura Militar e exilou-se no Chile, tendo recebido o apoio do amigo Pablo Neruda. No Artigo II dos “Estatutos do homem”, diz o poeta: “Fica decretado que todos os dias da semana, / inclusive as terças-feiras mais cinzentas, / têm direito a converter-se em manhãs de domingo”. Eis o Artigo Final do poema:

Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Esse poema, escrito em 1977, me fez lembrar alguns acontecimentos da atualidade, entre eles a defesa insana da ditadura, o negacionismo em relação à Covid-19, as fake news sobre a vacinação e a tentativa de desabonar a ciência, os ataques aos jornalistas/meios de comunicação e a repressão que vivemos. Basta lembrar as manifestações da semana passada, em prol da vacina contra a Covid-19 e do impeachment do presidente, que foram duramente reprimidas pela polícia. No Recife, dois homens foram atingidos com tiros de bala de borracha e ambos perderam parte da visão; as duas vítimas da ação truculenta da polícia foram ao centro da cidade trabalhar e não estavam participando do protesto. E mesmo que tivessem, não poderiam ter sido atacadas daquela forma. Afinal, a liberdade de expressão é um direito assegurado na Constituição. Naquele mesmo final de semana, um homem foi preso em Goiás porque se recusou a tirar do carro um adesivo com uma mensagem contrária ao atual governo.

Voltemos à magia do domingo, tema da crônica de hoje. Eu e minha mania de tergiversar. Poderia citar ainda a canção “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil, cuja narrativa lembra um filme, mas vou encerrar o texto por aqui para não cansar o leitor com tantas informações. Talvez eu volte a falar do domingo na próxima semana.

Sobre minha amiga que detesta o domingo. Quem sabe depois de conhecer esses textos e a canção de Gil, ela não mude de ideia e comece a ver a magia do domingo. Desejo que ela possa “ver a vida acontecer / Como um dia de domingo”.