Talvez Luciana tenha razão. O problema do ser humano é que ele só pensa em escrever sua biografia, quando na verdade a vida é uma dança cósmica. A gente fica querendo reduzir tudo a um único caminho para alcançar a felicidade. E esse caminho invariavelmente passa por uma lobotomia geral, em que todos ambicionam ganhar medalhas e ter um montão de coisas.

Não é que eu acredite nessa história de felicidade, como se fosse um estado de plenitude possível de se chegar em algum momento da vida. Acho que pensar assim é cair de cabeça na depressão. A felicidade é um vento que sopra e assanha os nossos cabelos. E quase sempre só percebemos que eles estão assanhados depois que a brisa já vai longe.

O grande lance então é conseguir sentir o bafejar do vento. Já que afora isso, tudo parece ser apenas desamparo. A agonia de querer marcar a passagem pelo mundo sem perceber que não adianta sair empilhando momentos de prazer, como se o resultado fosse a felicidade total. Quem sabe seja esse o nosso problema. Essa busca por uma felicidade desenfreada, que sempre deságua em deleites fugazes, no consumo desmedido e no vazio que aparece logo depois, como o de quem abre ansioso o pacote dos Correios sabendo de antemão o que ele conterá.

No final das contas, é como escreveu Hilda Hilst: “(…) trabalha tua riqueza, e eu trabalho o sangue/ Dirás que sangue é não teres o teu ouro/ E o poeta diz: compra o teu tempo/ Contempla o teu viver que corre, escuta o teu ouro de dentro/ É outro o amarelo que te falo”.

Ontem, entre sorrisos, Clarice e Luciana cantarolavam juntas e desafinadas uma música que tocava na televisão. Eu estava por perto lendo David Grossman. De repente, senti uma lufada de vento batendo na minha nuca. Era a felicidade escapando das armadilhas.