Para Janaína Montenegro

Desses dias que a gente não sabe ao certo o porquê de se estar desorientado. Perambulo pela casa. Entro em um cômodo e outro. Tudo está em marcha lenta. Faço as mesmas coisas de sempre antes de ir para o trabalho. Mas parece que nada flui…. Logan passa por mim correndo. Tropeço no bichinho. Cambaleio, mas fico de pé. Não. Eu não bebi.
Talvez seja o sonho da noite passada. Um sonho bom com final infeliz. Isso. Foi o sonho: voava em piruetas, me desviando das árvores e das cercas. Muitas cercas com as amarrações dos arames maiores que o normal. Eu ia e vinha em uma alegria profunda e boa. De repente despenco aos solavancos… fico espetada entre os arames. Quero acordar. Sei que estou dormindo. Não consigo. Depois de muitas lutas estou de pé.
Entro mais uma vez no escritório. Olho sem interesse real para as lombadas dos livros. Soletro sem propósito aparente MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS. Volto à cozinha, encho uma xícara de café, entre um gole e outro as lembranças daquele sonho estapafúrdio. Estou incomodada.
Preciso me orientar. Me orientar. Faço cerimonias para me vestir. Tudo fora do lugar. Nenhuma roupa me agrada. Os sapatos não combinam com nada. Antes combinavam. Que droga de sonho. Estou pronta em um vestido largo, esvoaçante…
Antes de chegar ao trabalho tenho que passar na casa de Cris para entregar uns livros. Me perco no caminho. Peço a ela para me enviar a localização. Pronto. Tudo certo. Olhos no GPS e nas ruas que parecem todas iguais. O que há comigo? Meu Deus! Tem algo errado comigo. Paro em uma esquina. Reconheço a casa de Cris pelas flores que ultrapassam as grades. E antes de estacionar o carro, uma pancada seca e aterradora me fez cair das nuvens.
Caí em uma boca de lobo. Sinalizada por uma viga e um pneu. Os vizinhos saem para me acudirem. Em três tempos. Estou sentada em uma cadeira de balanço com um copo de água com açúcar entres as mãos. Tem seguro? O que? O carro tem seguro? Sim tem. Me dê o contato que vou acionar para você. Tudo certo. O carro se foi guinchado. Eu fiquei mais um pouco na casa de Cris consolada pelos vizinhos que esbravejavam: “é culpa da companhia de esgotos e do trânsito…”
“O que importa é que a senhora está bem, né?” Sim. Claro. Inesperadamente fiquei mais leve. Tudo parecia calmo e em ordem… Já em casa um cheiro de café bem passado impregnava a cozinha. Enchi a xícara até a boca. Precisava perder o sono. E nada de sonho naquela noite. Volto às leituras das lombadas, e mais uma vez o livro bordô com letras douradas saltam aos meus olhos – MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS – Tenho um sobressalto. Por que não atentei para isso antes? Por que não prestei atenção aos meus sentires? Quantas e quantas vezes li A boneca no bolso: Vasalisa, a sábia? Está dito no primeiro parágrafo desse conto: “A intuição é o tesouro da psique da mulher. Ela é como uma velha sábia que está sempre com você, que lhe diz exatamente qual é o problema. Se você deve virar à esquerda ou à direita.”
Quantas “vasalisas” ao redor daquela boca de lobo!

 

Fonte da foto: Jornal Diário do Aço