“… Boi com sede bebe lama
Barriga seca não dá sono…”
(Petrúcio Amorim — “Filho do Dono”)

Há quem diga que extrair da pobreza, do sofrimento e da dor, a beleza, não é para qualquer um. O nosso sertão talvez seja um cenário inóspito para os parnasianos, quando do ponto de vista do que aflora da alma do poeta sentimentalista, extravasando, em rimas simples, a peleja das terras áridas, rogando a Deus chuva para arar a terra rachada pela seca, significando o amor e bravura, resistência e coragem de um povo que não desiste do seu chão, não se envergonha de suas raízes.

Não é tarefa nada fácil transformar a agonia em versos poéticos, quando os açudes barrentos são o oásis do sertão, quando o feijão cheio de gorgulhos, feito na água e no sal, é o banquete que serve à família, quando a “vaca Estrela e o boi Fubá” se apercebem lúgubres, sem forças para caminhar.

Há quem diga que todos os temas podem ser desenhados, pintados, escritos, cantados e interpretados, e, ainda que seja a arte pela arte, nunca haverão de ser interpretados fielmente ao pensamento do autor. O burilar da obra jamais será impessoal ou resguardado de sentimento, nem para quem o cria nem para quem o recebe, portanto, não há como negar os cactos cheios de espinhos que alimentam e matam a sede do gado que capina o chão para prover o alimento.

*Crônica “Da dor à Poesia”, de Flávia Arruda, presente no livro Exercícios Literários: Volume III (Editora Sarau das Letras, 2020), o mais novo lançamento da Confraria Literária Café & Poesia.

 

Flávia Arruda
Pedagoga e escritora, autora do livro As esquinas da minha existência [email protected]