– O problema aí, eu garanto, não é bateria. Disse o amigo do meu vizinho, que veio em meu socorro tirar o carro do “prego”, batendo nos peitos, com tom firme e toda a convicção que lhe conferia.

A consorte do convicto expert em mecânica elétrica apressou-se em respaldar a fala cheia de certeza do cônjuge para a esposa do meu vizinho, dizendo baixinho, porém, perceptivelmente, transbordando de orgulho:

— Se ele não fosse pedreiro, com certeza, seria um excelente mecânico.

Eu havia esquecido os faróis acessos no dia anterior. Tudo bem, concordo que fui displicente, desatenta, barbeira, lesa, abestalhada… Convenhamos, depois de quatro anos de jejum automotivo, alguma cangueirice teria de aparecer. O ditado que rola por aí é que, assim como dirigir, andar de bicicleta, e fazer amor, não se desaprende, pode dar uma enferrujada que logo na primeira lubrificada já toma o prumo e segue como se nunca tivesse tido um lapso temporal.

Meu vizinho concordou com seu amigo em número, gênero e grau. Arriscou, também, no defeito de pronto:

— Motor de partida! Convencido continuou: — eu aposto.

A chupeta, as acelerações e as teorias em nada estavam conseguindo ressuscitar o “pobe véi” de guerra. Bateram o martelo depois de uns 40 minutos, e um bocado de cervejas, que a melhor coisa a fazer era esperar chegar a segunda-feira e chamar um mecânico que dispusesse de um aparelho que pudesse conferir o problema do meu “encarnado”.

Eu acenei concordando sobre o mecânico especializado, mas, não sem antes dizer:

— Tudo bem, vamos aguardar. Mas é bateria.

O vizinho lembrou de um amigo mecânico, Marcelo, e investiu na tentativa de chamá-lo para dar seu diagnóstico, se fosse o caso, rebocar para sua oficina ou coisas do tipo.

Naquela tarde de sábado o evento acontecia em torno da morte anunciada, pelos amigos presentes, da bateria do meu queridinho Classic. Evento que reuniu um bocado de gente para esperar o mecânico especializado vir dar o seu parecer. Espera esta regada a mais cervejas e papos sobre mecânica, funcionamento dos veículos automotores, suas curiosidades e causos que acontecem no trânsito.

Antes que Marcelo chegasse a consorte e seu cônjuge, que se não fosse pedreiro seria um excelente mecânico, partiram. Quando da chegada do tão esperado especialista, e salvador da pátria, este já desceu do veículo com a ferramenta da chupeta em mãos e levantando o capô de seu carro. Eu, de carreira tapada, fui levantar o capô do meu carro. Depois de posicionar os cabos de uma bateria para outra, ele ligou seu carro e se encaminhou para ligar o meu.

Ao lado eu observava tudo atentamente. Marcelo deu na chave e de primeira o carro pegou. A cara do meu vizinho? Ele só não perdeu a aposta porque eu não casei a danada, caso contrário, teria embolsado uma boa grana naquele sábado à tarde.

Aguardamos que a bateria carregasse com o motor em funcionamento, isso, por volta de uma hora. Enquanto isso, ficamos sentados em torno do carro conversando sobre os quatro tempos do motor, as vantagens e desvantagens do motor flex e qual era a função do acelerador. Não resisti e perguntei para meu vizinho:

— Quando você acelera, o que o mecanismo do pedal de aceleração está enviando?

— Gasolina, respondeu o morador do apartamento abaixo do meu.

— Ar, meu caro, ar! Respondi com gostinho de 3X0.

Quem foi mesmo que disse “mulher no volante é perigo constante”? A minha Categoria “D” que o diga.