Apesar de admirar Chico, Caetano e demais ícones da MPB, Pinto Júnior gostava mesmo era de Roberto Carlos. Musicalmente, era o ´Rei` a paixão maior do saudoso jornalista e amigo que partiu no sábado vitimado por complicações pós-Covid.

Perdi a conta de quantas vezes ele pedia em bares e restaurantes que o dono ou o garçom de plantão colocasse Roberto na trilha ambiente. Recordo ainda do pen drive com mil e tantas músicas do Rei que ele escutava no som do carro. Assim como lembro da única vez que fomos juntos ao mítico Bar do Roberto Carlos, da avenida Amintas Barros, em Natal, onde Pinto pode exibir seu conhecimento da obra robertocarliana (quase uma condição para frequentar o estabelecimento). Bons e saudosos momentos.

E tudo isso me veio à tona dia desses quando eu tomava uma sopa no Centro de Natal e no som ambiente tocava “É preciso saber viver”. Como quase todo mundo sabe, trata-se de um clássico de Roberto, composta em parceria com Erasmo em 1968, mas na verdade uma versão da canção “It’s Over”, de Elvis Presley e nos anos 2000 regravada pela banda paulista Os Titãs.

Nunca havia exatamente me detido na música ou na letra. mas nestes tempos de pandemia e perdas, ela acabou naquele momento despertando em mim a sensação corrente de que, como dizem, a vida é um sopro. Frase inclusive que ouvi e falei bastante nestes últimos dias.

E me dei conta também que Pinto foi um homem que soube viver. Nascido em família humilde cujos filhos forjaram sua história através da Educação e do Trabalho, formou-se em jornalismo, arriscou migrar de sua Paraiba natal para as terras potiguares e aqui muito construiu. Ergueu um jornal impresso que deu conta do recado por uma década. arquitetou um portal que se mantém, além de uma webtv e um programa já longevo na Band. Paralelamente, costurou projetos e ações de cidadania, muitos, além de encampar projetos culturais como o Concurso de Poesia Zila Mamede, que mantivemos durante seis edições e que encheu nossas vidas de poetas. Construiu credibilidade, artigo raro hoje em dia.
Mas sua maior realização foi sua família. Amigo de Pinto desde que nos anos 2000 trabalhamos juntos como repórteres no Correio de Natal, de Roberto Guedes (onde nos conhecemos) acompanhei sua história com Irandi, do nascimento dos seus filhos.

Tanto acompanhei os projetos que ele realizou como os que sonhava. Mas da mesma forma que é preciso saber viver, como canta a música, também é preciso saber deixar um legado, e Pinto tanto soube viver como quanto ao legado, o deixou, na prática e na teoria. Cumpriu sua missão com louvor e assim será lembrado.

É preciso saber viver e também é preciso saber se despedir. Descanse em paz, amigo, sua memória será sempre lembrada como alguém que soube viver.