Pensar a indústria cultural, é considerar as diversas possibilidades que o cinema, a televisão, a literatura, o teatro e a música, dentre outros meios, são capazes de trazer. Seja como entretenimento fútil e raso, até elementos informativos e construtivos. Uma faca de dois gumes: assim como é possível fortalecer, também destrói nossas variadas (re)existências. No topo dessa indústria cultural estão interesses coloniais, que vêm anulando histórias e culturas de povos subalternizados. Até quando seguiremos fortalecendo e disseminando preconceito e raiva?

Durante toda a nossa vida consumimos produtos dessa indústria sem compreender que essas produções contribuem para a construção de estereótipos e arquétipos dos nossos povos. Nossas identidades são limitadas, engessadas e subalternizadas pelo sistema. Desde aparentemente inofensivos desenhos animados a séries do início da década de 90, com personagens invisibilizados e signos carregados de racismo, somos informados, desde muito cedo, que o modelo de sociedade é baseado no padrão eurocêntrico, como se não fôssemos diversos em tantos aspectos de existências e sem nenhuma representatividade visível e potente nessas produções.

Quem não lembra dos episódios de Pica-Pau? Havia um “índio” que seguia um modelo padrão único norte-americano, sem respeitar as diversidades de povos indígenas das Américas. Além disso, esse personagem reforçava o arquétipo do “índio selvagem e violento”, imagem que contribuiu para a escravização do nosso povo e ainda hoje serve como base para justificar ataques a territórios indígenas. Nas novelas podemos citar como exemplo o “índio” de Uga Uga, que era representado por um ator global, loiro dos olhos azuis.
Não podemos esquecer dos filmes Western, também conhecidos como “faroeste”, que protagonizam o branco como herói que barbariza os indígenas, cujos territórios são invadidos. O fato é: quantos de nós, ao ver tais cenas, problematizou estas questões? Por que, ao vermos tais episódios na televisão e no cinema, não enxergamos tanto absurdo?

De acordo com o pensamento de Adorno, a indústria cultural, fazendo uso da estratégia da fruição estética, apoia-se em atores e atrizes escolhidos de forma estratégica, cenários perfeitos e trilhas sonoras comoventes. Todos esses fatores trabalham em conjunto, nos levam a aceitar sem questionamentos todas essas violências e assim seguem formando o nosso inconsciente coletivo que, a partir daí, passa a ter essa visão massificada, deturpada e generalizada dos povos indígenas.

Há outra perspectiva necessária para compreender. Enquanto a indústria cultural majoritariamente continua reproduzindo esses estereótipos e arquétipos, nos configurando em um padrão único quinhentista e pessoas não-indígenas produzindo, sem reconhecer nossas realidades, sobre nossos povos ganhando premiações e méritos às nossas custas, nós estamos nos protagonizando e ocupando cargos de direção e realização de obras em diversos segmentos.

Festivais e amostras de filmes indígenas periodicamente acontecem como o Cine Kurumin, debates e estudos acerca de obras literárias e filosóficas indígenas também são promovidos através de transmissões ao vivo nas redes sociais e tantos outros meios de escoar nossas (re)existências. Nossas obras em diversas plataformas, formatos e gostos estão circulando, conhecer e adquirir nossas produções é sinônimo de fortalecer e visibilizar nossas lutas e diversidades. Até quando você não perceberá que somos intelectuais e autores de e sobre nós mesmos?