O coração acelerou, palpitando freneticamente, quase saindo pela boca. O corpo se desmanchava, ao incendiar num calor de 50 graus. Calafrios, corpo suado, mãos trêmulas, pernas bambas, boca seca, pensamento distante, respiração ofegante, raciocínio lento e desconcentrado. Uma euforia que insistia em dominar meu corpo e mente. Parecia que eu estava fora de orbita, em êxtase.

As sensações, estas eu já as conhecia. São velhas “amigas” que vez por outra vem me visitar, de um jeito ou de outro. É bem verdade que, dependendo do meu estado de espirito, elas nem sempre sejam bem vidas. Alias, tem dias que saio em busca delas para me acalentar e me sentir viva.

Viva… Pois é, nesse caso, em específico, eu pensei que não sobreviveria. Achei que não chegaria a ver mais uma nova aurora, e, acho que, estes instantes de incerteza, instantes finais de uma trajetória, me fizeram pensar sobre o legado que eu deixaria para os meus… Pensei no livro que nem publiquei e na árvore que não plantei. Criei gás novo. Stop! Parem tudo, deem-me trégua.

Levantei, venci as dores no corpo e corri, melhor dizendo, arrastei-me até a farmácia da cozinha. Duas cápsulas de Multigrip e um comprimido de Dorilax seriam meu pontapé inicial ao combate àquela gripe, que insistia em se instalar no meu corpo e mente.

Pude pensar que, como tudo na vida, as sensações poderiam expressar estados diferentes. Ainda que possam se parecer, o destaque principal está na irritabilidade que algumas causam em determinados estados. Ao contrário do bem estar provocado, pelas mesmas sensações, em situações bem diferentes.

De todo jeito, ou melhor, de um jeito ou de outro, não estamos livres de sentirmos os diversos estados inerentes ao homem. Agora, tudo está ligado diretamente à mente, e se assim é, posso tirar vantagem disso e inverter as sensações cruéis de uma gripe, que peleja em me pegar, e dá uma rasteira nela. Como? Simples, é só canalizar as sensações sintomáticas para àquele estado que adoramos sentir… Masoquismo? Jamais. Costumo dizer que isso é saber viver. Afinal, tudo tem seu tempo. Não adianta querer burlar as sensações, elas chegam e se vão quando bem entendem.

E eu ainda tenho um livro a publicar e uma árvore a plantar. O livro já está encaminhado. Agora a árvore, dessa eu quero as copas frondosas, a sombra aconchegante dos fins de tarde e o suco dos seus frutos… Quero a família reunida sobre sua estirpe, num delicioso piquenique, com toalha quadriculada, cesta de vime com frutas e guloseimas, flores colhidas na hora e o amor transbordando dos corações.