O livro da vida de um solitário foi escrito a partir de um estilo curioso e rebuscado, repleto de infindáveis vocábulos e pela filosofia dos ascetas. Um romance sem uma trama e com apenas um personagem, sendo, de fato, simplesmente um retrato psicológico de um certo alguém que buscava alcançar o lirismo e a suprema criatividade mediante uma experiência de solidão insuperável. Uma vontade irresistível de estar só, completamente só; uma ansiedade de conversar consigo mesmo em uma estreita câmara sufocante, tão sombria e lancinante, mas que excitava a criatividade da alma como uma animação poética. O silêncio da noite era profundo e sepulcral…   

              Os dias eram frios, o ar tétrico, a casa silenciosa. O brilho do sol já havia se apagado completamente. No alto do firmamento, onde o azul era mais profundo, três ou quatro estrelas ainda resplandeciam, mas foram apagadas pelo toque de um anjo mau. O céu era agora um fundo escuro de uma só tinta. A luz triste da lua filtrara-se pelas aberturas do telhado, resvalando com seu fulgor acetinado à fina cortina de seda branca da janela, incidindo sobre a face de um anacoreta. Sentado à beira da cama, em uma alcova soturna como a noite, encontrava-se um jovem em pleno frescor da adolescência, branco, delgado, rosto cravado de espinhas, boca em ruínas, vasta cabeleira, toda cacheada e reluzente pela untuosidade. Os seus olhos eram castanhos, possuidores de um lívido brilho de mistério. Ele observava taciturno o horizonte, que se tornava cada vez mais negro, a mesma cor que matizava o seu destino. Não ouvia nada, somente o eco dos seus pensamentos.

O quarto possuía um duro aspecto nauseabundo. Longas teias de aranha pendiam sobre todos os cantos das esquálidas paredes, como cortina de crepe esfacelado. A sua porta, que selava o seu futuro e a sua felicidade, era como a tampa de um túmulo. Lá, envolto numa duplicidade de angústia e mórbido prazer, ele permanecia esquecido, mesmo no almoço ou no jantar, com os pés cruzados, a cabeça molemente caída sobre o peito, num aborrecimento que parecia infinito. Pouco dava importância aos estudos; era desleixado, preguiçoso, vivendo apenas para a solidão e para seus romances, vivazes companheiros, aglomerados e derreados por uma imensa prateleira, que parecia interminável tal qual o seu desterro. Brotava o talento original e fecundo de um poeta…

Ele folheava com enlevo aquelas páginas amolgadas, tentando encontrar nelas o lirismo, o amor e o sofrimento que as almas simples procuram na literatura. Ele assimilava as inúmeras narrativas que lia e muitas que criava, buscando um mero acalento, uma fuga das tristezas do seu exílio, um refúgio tão aconchegante como o da noite, protegendo-o do desvairo. O deleite era sulcado pela melancolia…

O carregado odor de punição do seu quarto parecia prender-se às folhas e a perturbar a sua mente. A simples cadência das palavras, a sutil monotonia de suas frases, tão cheias de complexos e vocábulos elaboradamente repetidos, produziam no cérebro do rapaz, enquanto ele passava de capítulo em capítulo, uma forma de delírio, uma doença de sonho, tornando-o indiferente aos dias que desvaneciam e as sombras que se arrastavam. 

Parecia que a fuga do tempo havia parado, como se algum encanto o tivesse rompido. Entre as quadrelas caiadas do seu infortúnio, o mundo estagnava-se numa apatia horizontal e as horas passavam inutilmente. Decorriam-se dias, meses e anos, e ele continuava na mesma irresolução; a fisionomia lânguida, as narinas dilatadas pelo hálito quente e doentio; o corpo tomado por um completo fastio, que lhe dava espreguiçamento de febre e má vontade. E, assim prostrado, deixava-se ficar sob os lençóis, tolhido de enleio e isolamento. Sua face era imóvel como um molde de cera, tendo a impenetrabilidade oriunda da própria melancolia. Os grandes paroxismos da cólera, e o mais singelo instante de alegria, ali deviam se amortecer inapercebidos, na lassidão dos tecidos, sempre impassível e rígida, assim como o semblante dos heróis romanescos. Ele já não achava posição no seu leito; virava-se da esquerda para a direita, deixando afinal pender a cabeça e olhando para o chão, angustiado pelo tédio. Os dias eram longos e aterradores.

  Aquele sorumbático rapaz conjecturava que o mundo lá fora poderia ser de felicidade, mesmo para os seres de sorte mediana. Pensava na cidade ao crepúsculo, os doces anseios pueris, a passagem das estações, jovens casais caminhando jubilosos pelas alamedas. Todos, de um modo ou de outro, tinham algum motivo, ainda que mínimo, para sorrirem. Todos, menos ele. Por um instante, ele sentiu que o duro fardo do seu íntimo estava para se romper em pranto. Foi aí então que dos fundos recessos do seu âmago saiu, límpido e tremulante, um novo pensamento: a morte.

A felicidade externa era imperceptível aos seus sentidos. Molestado pelos devaneios, apreensivo pela ideia de combater um ser onipotente e maligno e humilhado pela dúvida de si mesmo, ele percorria pelo quarto, meditativo, com um andar vagaroso, acompanhado de suspiros e descaimentos de pálpebras. Às vezes, ficava longo tempo debruçado na janela, a fitar o deserto do tempo, percorrendo com o seu olhar cansado a funda paisagem, que se esbatia nas meias-tintas de um horizonte tenebroso. As ruas estavam abandonadas; ao longe, ladrava consternadamente um cão, e, de vez em quando, ouvia-se os ecos de uma música longínqua – e ele, ali, nas trevas do seu ergástulo mental, sozinho como nunca. Mesmo com a possível ventura do mundo, ele sentia-se sempre sobre a orla de um mar cinzento e uniforme, sem casas, árvores ou pessoas ao seu redor. Ninguém o via, ninguém o ouvia, ninguém o atendia. Aquilo deveria ser o inferno!

              Ele estava esgotado. Queria acabar com aquela obsessão terrível, aquele suplício insuportável. Desejava, consigo mesmo, ver terminada aquela agonia; queria fugir daquela prisão; resfolegava, sem ousar mexer com a cabeça, olhando para os lados, de esguelha, procurando uma saída, de algum lugar onde se escondesse ou de alguma força maior que o arrancasse dali. A estrada de sua vida parecia terminada.

No meio das narrativas romanescas, surgia uma inspiração…

O último dia de sua solidão parecia ser igual a todos os outros, se não fosse por uma estranha luz que suplantasse o seu exílio de sombras. O horizonte agora já não era tão assustador como antes. As estrelas, da eterna imensidão do espaço, agora flanavam sobranceiras, cheias de raios e trilhos, parecendo indicar o caminho de uma morada inalcançável. Ele lia através da penumbra, hipnotizado pelas imagens e descrições de uma terra fabulosa, sem as misérias e lágrimas dessa existência; um lugar de ventura, onde a dor e o sofrimento estivessem apenas contidos nas estórias. Aqueles personagens, assim como ele, eram capazes de criar beleza dentro de um quadro lastimável. Parecia que ele se fazia novamente amigo da realidade, sorvendo a vida em largos haustos, como quem acaba de sair do cárcere e saboreia a liberdade. Ele admirava aquela cintilação das estrelas com êxtase, de mão no queixo, o cotovelo no ar. Ela estava desaparecendo, seus olhos brilhavam intensamente, a ávida obsessão arregaçava-lhe o nariz, e as suas pernas queriam voar até lá.

 Como num empolgante lance de relato literário, ele se viu como um pássaro, com asas brancas, abertas, adejando por entre as nuvens brancas da incompreensão humana, chegando até uma morada onusta de perfeição e saber. Uma elevada terra de encantos e contrastes, que guarda com esmero as histórias dos povos de diferentes matizes. O panteão onde vivem os heróis e os bárbaros, os cavalheiros e os desapiedados, o real e o romanesco. Ao apreciar aqueles indeléveis vocábulos, sua fantasia converteu-se em um corcel orgulhoso e petulante, capaz de romper barreiras impenetráveis, escalar montanhas inconquistáveis, ou até mesmo alcançar o céu, imensidão azul onde se descobre o heroísmo desejado e inatingível, o amor suspirado e trágico. As suas mensagens, que variam entre a delicada melodia das rimas, o estoicismo dos macambúzios paladinos e a insânia das eras imemoriais, revelam-se como aspirações de ideais fantásticos. Abaixo de Deus e acima dos homens encontra-se o lar de uma divindade benfazeja, dotada de asas que exalam o mais poderoso dos bálsamos: a imaginação.

As batidas na porta despertaram-lhe do sonho. Ele ainda estava trancado em seu quarto. Despiu-se, olhou mais uma vez para o tempo e deitou-se. Abriu por hábito um livro; todavia, no fim da primeira página, seus olhos pareciam sonolentos. Fechou a janela. E então sentiu um bem-estar infinito, extremamente agradável, como nunca em sua vida. Abraçou-se aos travesseiros e, antes que a solidão pudesse lhe sobressaltar o espírito novamente, ele dormiu. Assim como ele, todos os seus devaneios e maus pensamentos também recolheram-se às suas alcovas.