O período medieval constituiu-se como um momento de domínio monacal e, consequentemente, do enriquecimento dos monastérios. O poder temporal, sobretudo depois da ascensão de Carlos Magno e a dinastia carolíngia, é ratificado com a criação das universidades e a disseminação da filosofia cristã, fato que possibilita o domínio ideológico e a maior influência política dos estados pontifícios. 

Desta feita, mediante o empoderamento e a difusão dos dogmas da igreja a uma turba destituída de criticidade, uma vez que não tinha acesso a uma educação requintada, criou-se, nas pessoas, uma necessidade de “salvação de suas almas”. Aproveitando-se desse fato, a ortodoxia católica, através do sacramento confessional, elaborou mecanismos de alienação e obtenção de riquezas.

A venda de indulgências, prática adotada pela igreja católica durante a idade média, a qual preconizava a mercantilização da remissão dos pecados dos fiéis, erigiu-se como o estopim para a publicação, em 1517, na catedral de Wittenberg, na Alemanha, das 95 teses propostas pelo monge agostiniano Martinho Lutero, cujo teor incidia em contestações não apenas contra a prática supracitada, mas também propunha uma reformulação em todo o conservadorismo religioso daquele período. 

No início do século 16, conquanto tenha sido uma época em que eclodiram transformações sociais, políticas e culturais, principalmente devido à ascensão dos ideais de base humanista propostos pelo Renascimento, ainda era notória a representatividade da tutela eclesiástica nos assuntos de estado. Nesse sentido, Lutero, a partir de suas teses, pretendia não apenas uma reforma dos valores contemplados pela cristandade, mas também dirimir o domínio ideológico do catolicismo em relação ao pretenso secularismo de outras instâncias.

Neste período, ainda vigorava, no âmbito acadêmico, a Escolástica, isto é, os princípios auferidos pelo amálgama entre a filosofia clássica, sobretudo agrupada em torno dos pensamentos de base aristotélica e platônica, e os dogmas cristãos estabelecidos pelos doutores da igreja, como Agostinho de Hipona, na patrística do século v, e Tomás de Aquino, no século 14. Sendo assim, a igreja católica admitia a racionalidade filosófica como conhecimento plausível para explicar os preceitos religiosos, embora subordinada aos valores eclesiásticos. Em outras palavras, conquanto aplicada como metodologia elucidativa de questões inveteradas de ordem metafísica – como origem da vida, espírito, pecado original e livre-arbítrio -, a filosofia estaria sempre subordinada à teologia.

Em dissonância à premissa escolástica de conciliação entre os pensamentos da antiguidade clássica e os princípios cristãos, Lutero propõe uma incompatibilidade entre os escopos filosóficos e divinos, uma vez que o silogismo, sobretudo para Aristóteles e Guilherme de Ockham, escolástico inglês, não se sustenta em assuntos divinos. Desta feita, para o monge agostiniano, o liame íntimo entre o teólogo e o lógico configura-se como uma proposição de cunho herético. 

Não obstante, é imperativo afirmar que a Reforma Protestante, inicialmente estabelecida para garantir a reformulação da igreja, se insere em um período de transformações estruturais na sociedade europeia do século 16. Ademais, ela não apenas influenciou uma ruptura da cristandade e a criação de correntes religiosas em outros países, mas ajudou na construção da sustentação do pensamento moderno. 

Ademais, as mudanças preconizadas por Lutero, a princípio alicerçadas no âmbito religioso, e que se transformaram, posteriormente, em causas de querelas ideológicas entre as vertentes do cristianismo, ultrapassaram os assuntos eclesiásticos e suscitaram alterações gradativas em outros setores. Nesse sentido, a educação, destinada ao clero e à elite econômica, torna-se objeto de análise do monge, o qual dedicou-se a instaurar eixos norteadores de um novo sistema educacional.

Ao promover a tradução da bíblia para o alemão, por exemplo, Lutero pretendia retirar dos clérigos o domínio absoluto das escrituras e, por conseguinte, da concepção de Deus. Ao entender as passagens bíblicas como fontes de verdades incontestáveis, ele intencionava propagá-las para a população, com a finalidade de erigir uma educação de essência religiosa, mas de abrangência universal.

Para além de uma pretensão de cunho eminentemente altruísta, Lutero argumentava em favor do direito das pessoas no que concerne à livre interpretação das escrituras sagradas, o que representava, na prática, a autonomia intelectual dos indivíduos frente à igreja. Desta maneira, o reformista orienta o uso da bíblia não apenas como instrumento de salvação, mas também como ferramenta pedagógica de conscientização.

Destarte, Lutero, possivelmente, antecipou noções que seriam defendidas na “Teologia da Libertação”, movimento do século 20, destituído de motivação político-partidária, o qual apregoa, mediante ensinamentos cristãos, a mitigação de injustiças socioeconômicas e intelectuais. Isto posto, essa faceta religiosa/educacional de Lutero incita no sujeito, por meio da exegese, um reconhecimento da sua própria realidade, ou seja, um aguçamento do senso crítico e o apuro da reflexão.  

Seguindo nessa linha, apesar de conceber a fé cristã como única alternativa plausível para a formulação de uma nova pedagogia, Lutero conclamou as instâncias seculares da Alemanha para salvaguardar os encargos de uma educação escolar. Desta forma, a criação do currículo, conquanto regido por valores espirituais, seria de responsabilidade das instituições políticas

Nesse sentido, mesmo fundamentada em princípios de ordem teológica, os quais posicionavam os indivíduos em uma hierarquia social, a educação proposta por Lutero é contemplada a partir de um caráter universal, haja vista que o conhecimento deveria ser difundido para todos, independentemente da classe, etnia ou gênero. Sendo assim, a escola idealizada pelo monge estaria em consonância aos objetivos de uma sociedade estamental, mas disposta por meio de um verniz popular.

Posicionando-se, portanto, a favor de uma escola de essência religiosa mas regulada pelo estado, o monge reformista, de certa maneira, atua em conformidade às intenções da burguesia renascentista, que, ao promover os conceitos humanistas, propunha uma dessacralização do sistema educacional. Desse modo, a estatização do ensino fomenta o confronto entre a secularização e o projeto de ascensão política da burguesia e os valores do catolicismo.

Outrossim, a educação pública e de responsabilidade estatal promovem uma tomada de consciência sobre a necessidade da laicidade curricular, fato que incita, ainda, uma politização da instrução. Esse aspecto antecipa, quiçá, a proposta iluminista, já no século 18, que, a partir dos ideais do liberalismo político, difundia a ciência e a igualdade jurídica das pessoas, contrapondo-se frontalmente à pedagogia religiosa do medievo europeu.

Em suma, a educação, na ótica luterana, consiste em um direito inalienável do cidadão, ou seja, garantido pelo estado desde o seu nascimento, discernimento que precede a premissa do liberalismo político de Jonh Locke. Além disso, o conhecimento, embora seja considerado divino pelo monge, está em conformidade ao processo de transição do feudalismo para o capitalismo comercial, em que se estabelece a diferenciação entre indivíduos orientados por uma ordem teocêntrica (pré-modernos) e outros que passam a guiar-se pelo uso da razão e o exercício da vontade (modernos).