De todas as mudanças repentinas que a chegada da pandemia proporcionou, a ausência dos abraços foi a que mais me causou estranheza. O distanciamento físico das pessoas que amamos, incluindo aí a partida precoce de muitos, bem como o adoecimento e, posteriormente, a demorada recuperação das sequelas da COVID-19, tudo isso poderia ser amenizado se pudéssemos nos abraçar como outrora. Para onde irão todos os abraços não trocados, que ficaram contidos nesse ano? Poderiam ser anotados numa “caderneta”, daquelas de papel surrado que anotavam os débitos das pessoas do interior das cidades que, logo que fosse possível, pagavam com juros e correção monetária.
         Abraços costumam ser bons. Há aqueles “de ladinho”, acanhados, que tocam, no máximo, costela com costela. Há também aqueles “distantes”, que tocam ombros com ombros. Há ainda aqueles que tocam coração com coração. Que se encaixam como a chave na fechadura. Como botina no pé (quem nunca usou botina, experimente e entenderá). Dizem por aí que esses abraços são a experiência mais próxima da vida intrauterina que podemos ter, pois, somente no seio materno sentimos dois corações baterem tão próximos. Talvez, por isso, o aconchego de um abraço nos aproxime da infância e do colo materno. Alguns têm cheiro de mãe ou pai, avó ou avô. São abraços curativos. Há abraços que param o tempo. Alguns instantes que travam os ponteiros do relógio e ficam guardados na gaveta das boas memórias. Ali, pouco importa se faz sol ou se está chovendo, se a noite ainda começa ou se está perto do fim. O tempo se faz desimportante, pois, há abraços que aguardam anos para que se encontrem.
          Quem já viveu pelo menos quatro décadas, pode trazer consigo as lembranças (suas ou de outrem) do tempo em que se dançava agarradinho, como num abraço contínuo, que durava alguns minutos. Ouvir tais músicas é trazer à tona cheiros e sensações inexplicáveis. É reviver. É relembrar. É revolver a terra dos canteiros adormecidos.
          No abraço, há sempre uma troca: enquanto um acessa os pensamentos do outro, outro ouve o que diz o coração de um. Por isso, a lógica das coisas não me permite dizer que vou “dar um abraço”, porque é recíproco o ato de abraçar. Por mais que seja um presente, ambos dão e recebem. É um download e um upload simultâneos, carregados de afeto. Abraços verdadeiros não têm cor, sexo ou religião. Aliás, nada pode “religar” tanto quanto um abraço que acolhe.
          Por isso, quando a pandemia passar, quero buscar lá na minha “caderneta” de abraços todos aqueles que não pude trocar e, na medida do possível, pagarei com juros tudo o que eu, porventura, estiver devendo.