O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza 
de seus sonhos.
                                 Eleanor Roosevelt
Era nosso primeiro encontro e eu estava ansiosa por saber como seria a tarde em um parque da cidade. Nos encontramos em um shopping e de lá seguimos para o nosso destino. Acho que fiquei meio desconcertada quando ele chegou. É natural não saber como agir perante uma situação nova, especialmente quando a maior parte do contato foi por rede social. Confesso que a falta de um cochilo após o almoço me deixou um tanto indisposta, mas isso não seria motivo para deixar de viver momentos agradáveis ao lado de uma pessoa que estava adorando conhecer. Pelo contrário, me esforcei para chegar cedo, e olhe que não sou tão pontual, e abri mão de fazer a sesta, que é algo sagrado para mim.
Um gesto me deixou desconcertada: ele segurou minha mão quando nos dirigíamos ao carro. Achei singela aquela atitude para um casal que estava saindo junto pela primeira vez. Foi muito legal passear de mãos dados com ele pelo shopping. Há tempos eu não vivenciava isso. Foi um misto de alegria, segurança e proteção. A gentileza de abrir a porta do carro também me deixou encantada. Sei que isso pode parecer bobagem (e até machismo) para alguns, mas para mim é apenas sinônimo de delicadeza e cuidado com o outro. Não vejo por que problematizar tantas coisas o tempo inteiro.
Fomos a um lançamento literário de uma amiga em comum e dividimos esse momento com a irmã e o sobrinho dele, que aliás estava se divertindo muito e aproveitando ao máximo o dia das crianças. A única parte estranha, mas talvez compreensível, foi quando ele me apresentou como sua amiga a sua irmã. Na verdade, achei desnecessária tal qualificação. Bem, talvez ele quisesse deixar bem claro que erámos somente amigos, apesar de estar pintando um clima entre nós, que na semana anterior havíamos conversado diariamente pelas redes sociais. Bastava ter dito: “Esta é Andreia”. Talvez fosse menos constrangedor para mim.
Quando chegamos ao parque o menino estava sentada numa roda com outras crianças entoando várias músicas do cancioneiro popular infantil, acompanhadas por uma moça que tocava violão e animava bastante o público. Depois disso, fiquei sozinha por alguns minutos, enquanto eles passeavam de pedalinho. Antes, tirei uma fotografia deles para deixar registrado aquele momento. Era a primeira vez de Miguel naquele parque, que sempre realiza eventos para o público infantil. Aproveitei para apreciar a paisagem e refletir sobre aquele momento e os desdobramentos/significados dele.
Após o passeio deles, ficamos sozinhos e fomos caminhar no parque (de mãos dadas). Mãe e filho foram aproveitar outras atrações do evento, que contava com palhaço, fantoches e diversos espaços interativos, além de um castelo inflável onde poderia brincar de pula-pula até cansar. A mais nova atração do parque, fazia questão de frisar a moça do pedalinho cada vez que vendia uma senha para o passeio.
Sentamos de frente para uma pista onde as crianças estavam andando de velocípedes motorizados (não sei se o nome é mesmo esse), sempre acompanhadas de um adulto que vez por outra dizia: “olhe para frente”. Guardei o sorriso e a satisfação daqueles meninos e meninas em sua aprendizagem lúdica (e necessária) sobre autonomia. Ao mesmo tempo, lembrei de minha infância humilde no interior de Pernambuco, quando muitas vezes ficava olhando as outras crianças se divertirem porque eu não tinha dinheiro para andar no carrossel ou na roda-gigante, meus brinquedos favoritos até hoje. Dessa época lembro também das músicas de Leandro e Leonardo que tocavam o tempo inteiro no parque. “O cheiro da maçã” é uma delas. Tenho uma sensação muito boa quando escuto essa ou outra canção da dupla que marcou minha infância.
Voltando aos velocípedes motorizados. Passou por nós um garoto de uns cinco anos com o joelho ralado. Seu olhar confiante e a tranquilidade dele me deixaram impressionadas. É como se carregasse ali um troféu por não ter tido medo de se aventurar, mesmo sabendo dos perigos de sua decisão. Talvez ele saiba que “não há caminho; o caminho se faz ao caminhar”. E quantas lições importantes aprendi naquela tarde…
 Vivenciamos uma experiência interessante nesse momento: enquanto observávamos as crianças se divertirem, Ricardo me contava um pouco de sua história e das muitas dificuldades enfrentadas desde o momento em que o pai saíra de casa, quando ele tinha cinco anos e o irmão nove. Passou a ir à escola sozinho desde então, teve de morar um tempo na casa da avó, quando a mãe adoeceu… Enfrentou uma depressão aos 15 anos, período em que abandonou a escola por alguns meses e não sentia mais vontade de viver. Sua avó materna o levou para morar com ela e, apesar de sentir falta de casa, retomou o gosto pelos estudos e voltou a sua rotina de adolescente.
Um dos maiores agravantes da separação dos pais foi a mudança brusca de rotina da família. E tudo que ele mais queria era o amor de sua mãe, que agora já não podia lhe dar a atenção necessária porque precisava trabalhar para sustentar a família.
Fiquei muito impressionada com sua história de vida e passei a admirá-lo ainda mais depois daquele momento. Se antes já o considerava um sujeito leve, amoroso, gentil, tais qualidades ganharam um sentido ainda mais especial depois de ter conhecido um pouco de sua trajetória, marcada pelo sofrimento, mas também pela superação. Ricardo é daquelas pessoas que a gente sempre quer por perto, tamanha sua alegria e vontade de viver. Aliás, seu senso de humor é uma das coisas que me chamaram atenção desde que começamos a conversar. E para completar, ele ainda toca violão. Outro dia me mandou um vídeo cantando Djavan. Há outras coisas que também admiro nele, apesar do pouco tempo que nos conhecemos. Sua resiliência e seu desejo de estar sempre próximo da família fazem dele uma pessoa única, por tudo que passou e por tudo que ainda enfrenta diariamente.
A disposição para cuidar dos seus e a preocupação constante em estar com eles, é algo tocante. Acho tão bonito quando ele fala da mãe e do quanto tem se esforçado para estar sempre com ela, realizando seus desejos mais simples e tentando “compensar” de algum modo o tempo perdido. De vez em quando, reservam uma tarde de sábado para tomar uma cerveja e escutar Alceu valença, um dos cantores preferidos de dona Lúcia. Aliás, no seu aniversário de 60 anos, o filho tocou a música “Anunciação” inúmeras vezes, a pedido dela, que sempre repetia: “toque aquela música que eu gosto, meu filho”. A festa surpresa aconteceu na rua em que eles moram, devidamente organizada pelos familiares e vizinhos para a ocasião. O cuidado com o pai é igualmente comovente. Não só o cuidado, mas também o respeito e a admiração que tem pelo seu “velho”, como se refere carinhosamente ao pai, que recebe a visita do filho todos os domingos, faça chuva ou faça sol.
Seu João sofreu um acidente vascular cerebral e um aneurisma há alguns anos e perdeu uma parte dos movimentos do corpo, o que lhe trouxe algumas limitações, mas isso não tirou seu bom humor e sua vontade de continuar vivendo. E assim a vida segue, com leveza e alegria, apesar das dificuldades. Assim como Gonzaguinha, ele sabe que “somos nós quem fazemos a vida, / como der ou puder ou quiser”. Por isso segue à risca o conselho do moleque do São Carlos: “Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs… / Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar!”.
Dentre as muitas lições que aprendi naquela tarde, talvez seja esta a mais importante delas: “Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você” (Rubem Alves).