Para quem nunca ouviu falar RuPaul’s Drag Race é um reality show de drag queens, criado em 2009. Siiiiiimmm! Um reality show feito com e apresentado por uma Drag Queen, talvez a mais famosa do mundo: a americana RuPaul.

Segundo a Wikipédia, RuPaul Andre Charles, mais conhecido como RuPaul ou Mãe das Drags, é um ator, drag queen, supermodelo, autor e cantor americano, que tornou-se conhecido nos anos 90 quando apareceu em uma grande variedade de programas televisivos, filmes e álbuns musicais. Ele também é conhecido por seu hit internacional “Supermodel”. E também por apresentar o RuPaul’s Drag Race.

A lógica do programa assemelha-se a outros programas do gênero: pessoas são confinadas em um certo espaço e precisam passar por provas semanais para garantir sua permanência. Ao final, um grande evento ao vivo é feito com as finalistas e a vencedora é anunciada. Porém, ao invés de passarem por testes de lógica ou de resistência, as Drag Queens se apresentam ao vivo e sem cortes, dançando e performando, além de participarem de desafios de alta costura, provando não só seus talentos como também o carisma, a originalidade e a audácia (muito peculiar da performance Drag).

As Drags aparecem “desmontadas” em suas versões do dia a dia e o programa mostra as transformações, ou seja, como elas se “montam” (esse é o termo dado para a transformação pelas quais as Drag Queens passam). Essa “montação” sempre é uma surpresa. Ninguém sabe o que a arte da maquiagem, a escolha das roupas e as performances são capazes de produzir.

Alguém pode estar pensando: “Por que ela está falando de um programa de televisão?” Explico já! Porque, pelo que tudo indica, Xuxa será a apresentadora da versão brasileira do reality show “RuPaul’s Drag Race”, que deve estrear em 2022 no Multishow e que também poderá ser exibido na TV Globo. (Estão em tratativas!)

O que é estranho nisso? Por que a apresentadora será a Xuxa? O que ela entende de performance Drag? Percebam que RuPaul é um ícone da luta LGBTQIA+, é gay, é negro, é afeminado, é Drag. Sua visibilidade é um marco importante para nossa luta.
Xuxa, apesar de ser uma “aliada”, não se constrói como alguém que tenha lugar de fala, que tenha representatividade como alguém da comunidade. Por que não colocam uma Drag Queen como apresentadora? Temos artistas Drags talentosíssimas e com legitimidade para representar a comunidade.

No site da Isto é!, A drag queen Bianca Dellafancy manifestou-se contrária a essa escolha em suas nas redes sociais: “Entendo escolherem a Xuxa como uma estratégia: para além do talento dela, o programa precisa de patrocínio. Quantas marcas vocês acham que apoiaram o projeto se a apresentadora fosse Silvetty, Nany, Lorelay, Rita, Bianca ou qualquer outra drag queen?”, disse Bianca.

A matéria continua dizendo que a drag também pediu mais visibilidade para as pessoas LGBTQIA+ “Isso escancara a falta de artistas LGBT+ fazendo sucesso no mainstream por falta de oportunidade, por falta de investimento na nossa arte, e é uma pena. Espero que seja um sucesso, e que convidem para o júri artistas que fazem de fato parte da comunidade. Meu e-mail tá na biografia”, aproveitando para se convidar para o júri do novo programa. (Certa ela!)

Isso escancara mais coisas que imaginamos.
Escancara que temos grandes artistas na comunidade LGBTQIA+, mas que empresas não querem vincular seus nomes a esses/essas artistas.
Escancara que artistas pretas e gays não têm espaço à luz do dia, porque elas estão fadadas a apresentações em guetos e redutos noturnos.
Escancara o racismo e a LGBTfobia estrutural e estruturante desse país.
Escancara que Drag Queens, nem são vistas como artistas, apesar de serem GIGANTES.
Escancara que ainda temos muito ainda a lutar para conseguirmos nossos espaços, para sermos naturalizados/as na sociedade, para não sermos substituídos/as por pessoas brancas, loiras, de olhos azuis, rica e com uma carreira consolidada… Só por que SOMOS QUEM SOMOS!